terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar - João Boa Morte Cabra Marcado para Morrer

* Ferreira Gullar

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho, 
só mata cabra da peste, 
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa, 
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais, 
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram, 
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer, 
vai tomar chá de sumiço".

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/joao.htm

Ferreira Gullar . Dois e dois: quatro

* Victor Nogueira


Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar - Subversiva

* Ferreira Gullar


A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país

Ferreira Gullar - Cantada

* Ferreira Gullar

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana 

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Capas do cesto dos proibidos (II)


Capa de Fernando Lemos para a edição brasileira da Anhambi de São Paulo de Quando os Lobos Uivam de Aquilino Ribeiro, em 1959.
Em rigor, não foi esta a edição mas a primeira da Bertrand, em 1958, a incorrer na ira da Censura, que a proibiu, proibição que seria o primeiro passo para um processo judicial a Aquilino. Graças a uma campanha internacional de apoio ao autor, e com receio de uma escalada na publicidade negativa numa altura já muito complicada diplomaticamente para o Estado Novo (depois do annus horribilis de Salazar em 1961), o regime desistiria dos seus intentos.
O Brasil liberal de Juscelino Kubitshcek foi uma dor de cabeça para o regime de Salazar: acolhendo todos os notáveis anti-salazaristas, de Delgado em 1958 a Henrique Galvão depois da tomada do Santa Maria, recebeu também inúmeros artistas e escritores portugueses forçados a abandonar o país temporária ou definitivamente. Foi o caso, por exemplo, de José Cardoso Pires, que chegou a colaborar durante uns meses (sob pseudónimo) com a revista carioca Senhor. E foi também o caso de Fernando Lemos, companheiro da primeira geração de surrealistas portugueses, que fixou estes em retratos fotográficos que são, talvez, as suas mais conhecidas obras.
Na aparente singeleza da capa, na sua quase literal tradução visual do título, esconde-se o primeiro sólido e concertado ataque ao muro censório do Estado Novo: depois de décadas em que a questão da censura à edição fora um assunto “interno”, o “caso Aquilino” tornou-a notória em quase todo o mundo, sendo o Brasil o epicentro do núcleo de resistentes que procuraram dar a conhecê-lo. Foi precisamente em São Paulo também que se publicou, ao mesmo tempo desta edição do romance, Quando os Lobos Julgam a Justiça Uiva, um pequeno volume onde se podia ler na íntegra os textos integrais de acusação e defesa no caso, antecedidos de uma introdução de Adolfo Casais Monteiro, exilado no Brasil desde 1954 (e que assina também o prefácio ao romance), uma edição que seria impensável em Portugal então e que tem uma importância histórica no contexto da edição nacional durante o Estado Novo, ao aproximar-se dos modelos de edições sobre processos de censura, como o L’Affaire Sade de Pauvert ou L’Affaire Lolita de Girodias em França, ambos de 1957, ou The Trial of Lady Chatterley, a edição que a Penguin publicou sobre o processo ao livro em 1960.
https://pedromarquesdg.wordpress.com/2016/12/05/capas-do-cesto-dos-proibidos-ii/

A geringonça vocabular do ano

***


5 de Dezembro de 2016, 08:53

Por

A geringonça vocabular do ano

C
omeçou a votação para a palavra de 2016, excelente iniciativa da Porto Editora desde 2009. Foram seleccionadas dez palavras: Brexitcampeão, empoderamento, geringonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, racismo e turismo  (hélas, sem versões acordistas!)

Palpito que geringonça vai vencer. Se tal acontecer, será a vitória do calão, assim fazendo jus à sua presença crescente na linguagem oral e nas redes sociais. Um vocábulo da política deste ano, cognome da maioria governamental, que teima em querer contrariar o que, nos dicionários, significa algo mal engendrado, tosco e desenculatrado.
Palavras da política já haviam ganho, em 2010 com austeridade e em 2011 com o fugaz neologismo já desfeito pelo tempo, entroikado. A propósito de palavras vencedoras de moda efémera e estrangeirada, logo descartadas do uso e da memória, o caso mais estranho aconteceu em 2010 com a onomatopaica sul-africana vuvuzela.
Como somos importadores vocabulares (com saldo negativo, pois não exportamos quase nada, nem para o Brasil), lá vem, no rol designado, o Brexit, em homenagem à língua de Shakespeare, o que, porém, nunca aconteceu com o quase Grexit.
Entre os nove substantivos e um adjectivo (desta vez não há verbos), há uma adopção por via do inglês “empowerment”. Só que o luso neologismo engendrou um palavrão esteticamente detestável, aparvalhadamente snob e que as pessoas comuns jamais conhecem e usam: empoderamento! Enfim, um empobrecimento de um empolamento por causa de um necessário e prévio empossamento sujeito, às vezes, a um emprazamento judicial. Tudo, evidentemente, sem apodrecimento (sobretudo monetário). Palpito que, para o ano, vamos gramar com “performante” …
Nos últimos anos, surgiram palavras ligadas à saúde. Este ano é microcefalia por causa do vírus zika, antes dos Jogos Olímpicos, entretanto “desaparecido” depois daquele evento. Antes, foram legionela e ébola.
Curioso é a engenhoca da geringonça ter feito desaparecer antipáticas palavras do mundo financeiro: PEC, défice, desemprego, orçamento (todas em 2010), austeridade e desemprego, esta repetente (em 2011), imposto, cortes, TSU (em 2012), “swap” (em 2013), banco (em 2014), plafonamento e privatização (em 2015).  E a dívida, que aumenta silenciosamente, ainda não teve um lugarzinho de “dama de honor” (ou “cavalheiro de honra”, para não ferir susceptibilidades de “género”)?
Em relação a anos anteriores, há menos palavras com carga negativa (apenas racismo microcefalia) contra sete no ano passado (jihadismo, ébola, legionela, corrupção, cibervadiagem e até basqueiro e banco). Ao invés, há termos com uma conotação claramente positiva (turismo, humanista, presidente e campeão). Será que está alteração vai pesar nos indicadores de confiança do INE?
Há ainda uma (boa) diferença face a anos anteriores: não há palavras escolhidas apenas porque marcaram os últimos meses, dado que a escolha foi mais homogénea considerando a totalidade do ano. Se tivesse vigorado o “sistema FIFO” (“first in, first out”), lá teríamos mais palavras de fim-de-ano, como por exemplo declaração (patrimonial), licenciatura (falsa) caça  (ao homem), sobretaxa, Caixa, Agosto (mês de todos os simpáticos aumentos), cuspo, etc. E quem sabe, domingo, quer dizer, Domingues.
Enfim, entre amigos da geringonça e amigos da onça, venha o diabo e escolha!
No Reino Unido, venceu a pós-verdade (post-truth). Já cá está chegando esse eufemismo para dar ar científico à mentira. Até lá, vamos xurdir (uma das palavras de 2014), que é como quem diz, fazer pela vida.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/12/05/a-geringonca-vocabular-do-ano/

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar - Poema Sujo

* Ferreira Gullar

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


http://noticias.universia.com.br/destaque/especial/2014/09/22/1111855/10/conheca-leia-10-melhores-poemas-ultimos-200-anos/melhores-poemas-poema-sujo-ferreira-gullar.html

Sttau-Monteiro - angústia para o jantar (excertos)


«Gonçalo entrara um dia, à hora do almoço, em casa do porteiro dum dos seus prédios. A família estava reunida em torno da mesa. A mãe e os filhos comiam batatas fritas e o pai o único bife. Fora-lhe impossível não comentar. 
- Então a carne é toda para si, João? 
A mulher saltara logo a defender a casa portuguesa: 
- Carne é para quem trabalha, Sr. Doutor. 
O porteiro passara a manhã sentado numa poltrona, no átrio do prédio, lendo O Século, enquanto a mulher varrera a escada, limpara a casa, cozinhara e olhara pelas crianças. 
- Parece-me que a Maria é quem mais trabalha nesta casa... 
O porteiro, de pé, com o guardanapo na mão, esclarecera a situação: 
- O marido sou eu, Sr. Doutor.» 

 «Levantou-se, deu a volta ao sofá e aproximou-se da janela. Lá fora a chuva parara. Por entre uma aberta nas nuvens via-se o Sol, um Sol da cor do aço frio, e indiferente. Durante uns momentos, telhados molhados reflectiram a luz acinzentada do fim do dia. Depois, subitamente, as nuvens juntaram-se e recomeçou a chover. Lá em baixo, na rua escura e suja, passaram dois cães a correr, e ao fundo, à esquina, surgiram uns vultos curvados que logo desapareceram pela porta da taberna

"Teresa voltou a sentar-se. Parecia-lhe que acabara de ver o futuro. A rua escura e suja, a luz acinzentada e os vultos lá ao longe, à porta da taberna, constituíam uma antevisão do mundo pelo qual se batiam o Pedro e os seus amigos. Sem que soubesse porquê, voltou a ter medo.»(…) 

“Nunca vi nada que não fosse lógico. Tudo tem uma lógica, muito embora esteja por vezes escondida. É a isso que chamamos o segredo das coisas. O que distingue os homens lúcidos dos inconscientes é que os primeiros procuram descobrir a lógica das coisas, ao passo que os segundos julgam que as coisas surgem por si próprias e procuram, não a sua lógica, mas a sua rima.” (…)

 (…) “A cidade, vista à noite, é estranha. Já pensou no que farão em casa todos esses tipos que a gente vê na rua, com emblemas do Benfica na lapela? Uns emblemas feitos de pedrinhas?- Sou um deles.- É? E que faz você à noite, em casa?Hoje era capaz de responder. À noite, em casa, repetimos o que fizemos durante o dia: nada. À noite, em casa, continuamos a esperar pela morte e, quando ela se aproxima, compreendemos que devíamos ter feito mais qualquer coisa.” (…)

(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)

As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)

O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)

As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)

Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)

Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"


sábado, 3 de dezembro de 2016

Sttau-monteiro - angústia para o jantar


O que dizer deste livro?

Sttau Monteiro escreve-o em 1961 mas podia perfeitamente escrevê-lo em 71 ou 81 ou 91. O livro, na realidade, começa quase sem época. Isto é, a expressão Estado Novo nunca é referida e a primeira referência a um tempo é uma menção à guerra colonial. Assim se percebe, juntamente com a introdução de Pedro, o período em que as personagens vivem. Isto não é de menos pois a indefinição revela já algo do carácter generalista da história. Pessoas como o Gonçalo, a Teresa, o António e, graças aos céus, o Pedro, vão sempre existir.
O livro é profético. Sttau Monteiro via claramente o fim do Regime apesar do mesmo só vir a cair 14 anos mais tarde num belo dia de Abril. Contudo, o que está em causa não é “apenas” o fim do regime em Portugal mas a questão da classe. Aquilo a que Sttau Monteiro chama a “lógica de classe”, ou seja, a injustiça que é conscientemente perpetuada por uma classe privilegiada que despreza os que não nasceram com tais privilégios. Parafraseando o Gonçalo, as classes altas arranjam sempre mecanismos para se proteger, superando inclusivamente os próprios regimes que as suportam e que elas suportam. Este livro não é mais do que a velha história dos  mais fortes a baterem nos mais fracos e a conseguirem safar-se com isso. Ou quase.
É desta forma que Gonçalo se torna cada vez mais insuportável. Por detrás da ideia muito badalada que anuncia que ser cínico é que é bom, percebemos que se encontra alguém vazio de ideias, amargo, a quem nada – desde a amante até ao bentley – faz feliz. Gonçalo é uma personagem trágica porque é claramente um homem com um grande intelecto mas absolutamente vazio de tudo o que faz com que a vida valha a pena.
António faz a manobra contrária. Começando como insuportavelmente patético, vai crescendo em dignidade, apesar de ser constantemente repisado por tudo e todos. Mas se no princípio o leitor não lhe dá o benefício da dúvida, no fim já se coloca completamente do lado dele. António inspira pena e, para qualquer leitor atento, raiva. É mesmo para ficarmos zangados com o destino dele, de nos rebelarmos contra a injustiça de uma sociedade que detesta e despreza os seus Antónios.
Alexandra é a personagem menos conseguida. Não se entende bem se Sttau Monteiro nutria mesmo um verdadeiro desprezo por uma mulher que faz o que ela faz ou se acredita que o sistema que vitima e mata António é o mesmo que retira a dignidade a Alexandra. É possível que assim seja, mas podia estar mais bem demonstrado. Todas as diatribes sobre a “condição de pega” tornam-se cansativas e repetitivas.
Inicialmente eu fui no engano ingénuo de achar que Gonçalo tinha um bom fundo. De que ele se encontrava com o António porque gostava dele ou dos tempos em que tinham sido colegas. Pensei até que poderia haver algum tipo de sentimento escondido por Alexandra, por debaixo de todo aquele cinismo horroroso. Não, o Sttau Monteiro não esconde. O que parece, é. E Sttau Monteiro sabia, percebia perfeitamente, que aquele sistema ali representado, aquela burguesia maldosa, fútil e indiferente ia acabar. Ou devia acabar.
Pedro e Gonçalo lembram-me duas diferentes frases. Sartre escreveu uma vez : “Ce sont les enfants sages, Madame, qui font les révolutionnaires les plus terribles. Ils ne disent rien, ils ne se cachent pas sous la table, ils ne mangent qu’un bonbon à la fois, mais plus tard ils le font payer cher à la société. Méfiez-vous des enfants sages!”
Pedro é claramente um destes enfants sages de Sartre. O contraste entre Pedro, um enfant sage, e os colegas revolucionários é óbvio. Pedro, apesar de “burguês”, percebe bem o que está em causa e que a mudança, a chegar, não é uma mudançazinha individual que vai facilitar a vida aos medíocres. É uma mudança a sério, que vai mudar tudo, tudo para àqueles que realmente importam.
Gonçalo, por outro lado, lembra-me o Major Gervásio dos Capitães de Abril de Maria de Medeiros. A determinada altura, Salgueiro Maia zanga-se com ele e critica-lhe o cinismo inútil. Gonçalo é precisamente isso: um cínico inútil.
Haveria benefícios em por os alunos do 12º ano a ler este livro. O Felizmente, há luar é muito mais “politicamente correcto” no verdadeiro sentido do termo; isto é, o Felizmente, há luar é indisputável, é a luta do individuo contra a tirania. A Angústia para o jantar é um livro muito mais complexo que faria os alunos enfrentarem a sua própria maneira de ser de uma forma muito mais activa. Ou seja, a Angústia para o Jantar engana-nos porque torna a personagem aparentemente mais simpática, a personagem principal, num homem completamente irrascível e repugnante. Em alguém que somos obrigados a criticar muito mais fortemente porque ele próprio é muito mais realista do que o Principal Sousa ou o D. Miguel Forjaz do Felizmente, há Luar. Merecemos estar armados contra os Gonçalos desta vida. 
https://aventar.eu/2016/12/03/o-que-dizer-deste-livro/#more-1263065

Capas do cesto dos proibidos (I)


Capa do pintor Benjamim Marques para a edição da Ruedo Ibérico em 1969 da peça musical Canto do Papão Lusitano (Der Gesang von Lusitanischen Popanz, estreada em 1967) de Peter Weiss, com tradução de Mário Gamboa.

Ruedo Ibérico era uma editora fundada em Paris por exilados espanhóis e cujos livros circulavam clandestinamente na Espanha de Franco até 1975. É um raríssimo exemplo de uma edição em português proibida pela censura portuguesa e que não foi publicada em Portugal (ou territórios ultramarinos) ou no Brasil. Depois do que acontecera com Luís Sttau Monteiro no final de 1966, preso para interrogatórios durante seis meses pela autoria de “A Guerra Santa”, uma das duas Peças em Um Acto publicadas pela Minotauro nesse ano (editora que seria encerrada pelo atrevimento), publicar em Portugal este libelo directamente acusatório do colonialismo português teria sido um suicídio, mesmo já em pleno “marcelismo”: Carlos Porto escreveu em 10 An­os de Teatro e Cinema em Portugal, que se tratou da peça “mais detestada e mais proibida” na última década do regime.

A poderosa capa de Benjamim Marques é outro dos elementos que enriquece esta edição plena de “cruzamentos” significantes: ex-frequentador do Café Gelo e dos surrealistas de Lisboa (é dele um desenho que representava o grupo em 1965) e a viver em Paris desde meados da década, ele empresta à violenta sátira de Weiss o espírito de rebeldia anárquica que se tinha respirado naquele canto do Rossio.

Eis um exemplo (ainda que raro) de como se podia combater o Estado Novo e a sua Censura de fora de Portugal e com livros (a Ruedo imprimiu 3 mil exemplares desta edição, que se vendia livremente em Paris).

https://pedromarquesdg.wordpress.com/2016/12/03/capas-do-cesto-dos-proibidos-i/

[a última bilha de gás durou dois meses e três dias], de Herberto Helder

 * Herberto Helder

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás, 
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS Por Oliver Stone e Peter Kuznick

30 de novembro de 2016 - 19h49 

Oliver Stone e A História não contada dos Estados Unidos





Autor de filmes emblemáticos sobre a história recente dos Estados Unidos, como Nascido em 4 de julho, Platoon, JFK, Wall Street e outros, Oliver Stone lutou na guerra do Vietnã. Diz que ficou espantado com o que os professores estão contando para seus filhos na escola, que, aliás, continua a ser o mesmo que ele havia aprendido em seu tempo de estudante: “Nós americanos éramos o centro do mundo. Havia um destino manifesto e nós éramos os mocinhos”. O cineasta juntou-se ao respeitado professor de História Peter Kuznick e, após uma pesquisa de cinco anos, a dupla fez um documentário e um livro com esta história não contada do seu país. Escrito em linguagem simples, tem como alvo imediato o público jovem norte-americano.


O que os autores fazem é mostrar a distância entre os acontecimentos relativos à política expansionista e hegemonista dos EUA e as fabulações criadas para justificar e enquadrá-los dentro da ideologia da missão divina concedida (sic) por Deus aos EUA para levar aos outros povos o cristianismo, a democracia e o livre mercado.

No livro, retratam uma política de Estado que, desde as origens, orienta e sustenta um empresariado sedento por concorrer com os impérios coloniais da Grã Bretanha, da França, Alemanha etc. Depois de anexar metade do México, inicia o século XX incorporando as Filipinas, Guam, Pago Pago, Ilha Wake, Atol Midway, Havaí e Porto Rico e reivindicando o controle sobre Cuba. Participa da 1ª. Guerra Mundial para romper o protecionismo das grandes nações e abrir os mercados para seus negócios enquanto impõe altas tarifas para importação. No plano interno, esmaga o movimento operário e sindical com grande violência, suborno e legislação restritiva e persegue ferozmente as associações e aspirações socialistas até reduzi-las à insignificância.

Simpatia pelo nazismo

O livro descreve e apresenta documentos sobre a simpatia e a colaboração dos grandes banqueiros e empresários norte-americanos com Hitler e o governo nazista. Ford, GM,Standard Oil, Alcoa, ITT, GE, Dupont, Kodak, Westinghouse e muitas outras empresas continuaram a fazer negócios com os nazistas até 1941. Ford e GM até aceitaram converter suas fábricas instaladas na Alemanha para a produção de armas. Banqueiros continuaram a negociar com os alemães durante toda a guerra.

Inglaterra, França e EUA se faziam de surdos aos insistentes apelos da URSS de Stalin para formarem uma aliança contra a Alemanha, e, ao mesmo tempo apresentavam apenas débeis protestos aos avanços das tropas de Hitler e Mussolini ocupando outros países (Etiópia, Austria, Thecoslovaquia, Sudetos etc). E vendiam armas a Franco para esmagar o governo republicano espanhol.

Para os autores, EUA e seus aliados fizeram muito pouco para auxiliar “a desesperada comunidade judaica-alemã quando em 1938 uma orgia de violência se desencadeou.” Em 1939, quando Hitler descumpriu os acordos feitos com a França e Inglaterra e invadiu a Thecoslovaquia sem qualquer reação, Stalin, certo de que a URSS estaria sozinha na luta contra o nazismo, procurou ganhar tempo para se armar, assinou o pacto de não agressão com a Alemanha, desviando o rumo da guerra para o Oeste. Em seguida, numa rápida sucessão, o exército alemão conquistou a Dinamarca, Noruega, Holanda e Bélgica. Em junho de 1940, a França desmoronava, com a maior parte de sua classe dominante optando pela colaboração com os nazistas.

Em 1941, diante dos apelos do primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, para os EUA entrarem na guerra contra a Alemanha, Franklin Roosevelt declarou: “Acredito que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que não ajudaremos a Inglaterra nessa guerra se for para eles continuarem a tratar com arrogância os povos coloniais”. Suas palavras significavam que os EUA queriam em troca ter livre acesso aos mercados até então sob o domínio imperial inglês.


Mas Roosevelt havia prometido ao seu povo que não mandaria os jovens norte-americanos para morrer na guerra europeia e precisava de um pretexto para descumprir a promessa. Com o ataque do Japão à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, o pretexto estava dado.

Heroísmo estóico da URSS derrotou Hitler

Atacada com ferocidade pelo exército alemão, a URSS clamou em vão pela abertura de um segundo front na Europa durante três anos. Sob influência de Churcill, as tropas aliadas foram desviadas para a África, frente secundária, mas de interesse da Inglaterra para a defesa de seu império (e de seu petróleo no Oriente Médio). A invasão da Normandia só aconteceu depois que o Exército da URSS, numa façanha inacreditável, havia destroçado a até então invencível máquina de guerra alemã, e marchava celeremente para Berlim. Ameaçava tomar controle da segunda maior base industrial e tecnológica do planeta, o que seria desastroso para os interesses dos capitalistas norte-americanos e ingleses. Os autores dizem: “Ainda que susbsista o mito de que os Estados Unidos venceram a 2ª. Guerra Mundial, importantes historiadores concordam que foi a União Soviética e toda sua sociedade, incluindo Josef Stalin, seu brutal ditador, que por meio do absoluto desespero e do heroísmo incrivelmente estóico, forjaram a grande narrativa da 2ª. Guerra Mundial: a derrota da monstruosa máquina de guerra alemã”.

A economia dos EUA quase dobrou durante a guerra, apoiada na indústria de armas. Como Franklin Roosevelt estava doente, sua terceira eleição à presidência envolveu uma batalha e um golpe branco para a escolha do vice-presidente. O progressista Wallace, que era o auxiliar mais próximo de Roosevelt, foi afastado por uma manipulação dos grandes industriais em favor de um senador provinciano e ignorante chamado Harry Truman. Meses depois, ao assumir a presidência após a morte de Roosevelt, segundo os autores, Truman estava “escandalosamente despreparado” para a função. Estimulado pelos representantes dos grandes empresários da indústria do aço e de armamentos e altos funcionários anticomunistas, rompeu unilateralmente os acordos estabelecidos entre Roosevelt e Stalin, suspendeu ajuda prometida para a reconstrução da economia da URSS.

As bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki foram jogadas sobre um país que já havia assumido a derrota, desnecessárias, dizem os autores. Depois de ter suas cidades severamente bombardeadas pela aviação norte-americana, e na iminência de a URSS entrar na guerra contra eles, os japoneses estavam buscando ativamente negociações para sua rendição. Na verdade, as bombas foram utilizadas para intimidar a União Soviética e conquistar vantagens nas negociações para o pós-guerra, ainda mais que o exército soviético estava em vias de derrotar a Alemanha e conquistar Berlim e todo o aparato industrial e tecnológico alemão.

A mais polêmica decisão da 2ª. Guerra Mundial foi tomada apesar das fortes restrições internas, mesmo entre os principais generais norte-americanos. O general Dwight Eisenhower, por exemplo, disse que era contra sua utilização porque “os japoneses estavam próximos a se render e não era necessário atingi-los com aquela coisa horrível”.

Os autores descrevem com detalhes o horror das consequências das bombas nucleares sobre a população japonesa e a euforia do presidente Truman ao receber a notícia.

Os EUA no topo do mundo
Ao final da guerra, os EUA ocupavam sozinhos o topo do mundo. O império britânico se desmantelava e a Inglaterra se tornava um estado-cliente dos EUA. A União Soviética estava devastadoramente pobre, mas tinha o maior exército de todos, e os partidos comunistas desfrutavam de crescente influência na Europa, o que causava calafrios na diplomacia norte-americana. Com sua economia florescente, produzindo 50% dos bens industriais do planeta, e detentores do monopólio da arma nuclear, ainda assim os EUA acusavam a URSS de estar prestes a conquistar o mundo. E ameaçavam de usar a bomba contra ela. Com a brutal repressão aos comunistas na Grécia, os EUA inauguraram a Guerra Fria. Internamente, iniciou-se a “caça às bruxas”, as investigações para descobrir comunistas “infiltrados” entre funcionários do governo, artistas, intelectuais. Alguns delatores de seus colegas destacaram-se: Ronald Reagan, Robert Taylor, Gary Cooper e Walt Disney. O grande jornalista I.F. Stone declarou que estavam tentando converter “toda uma geração de americanos em dedo-duros”.

No plano externo, a CIA (Central Intelligence Agency) passou a promover “guerras secretas”, centenas de operações em todo o mundo (mais de oitenta durante o segundo mandato do presidente Truman). Chamada de “exército invisível do capitalismo” a CIA cresceria “exponencialmente nas décadas vindouras”, dizem os autores (o que, aliás, foi completamente confirmado por Snowden, como mostra o filme). Grandes somas do Plano Marshall, destinado à recuperação da Europa, foram desviadas à CIA.

Em 1949, a explosão da bomba atômica soviética e a vitória da revolução comunista na China foram motivo para criar um clima de vulnerabilidade nos EUA. A revista Time deu manchete: “A onda vermelha que ameaça engolfar o mundo”. A guerra da Coréia, em 1950-53, “foi a pior derrota que os norte-americanos já sofreram”, escreveu a revista.

Outro grande abalo para os americanos foi o lançamento do Sputnik pela URSS em 1957, que lançou os EUA numa frenética escalada armamentista. Mas as autoridades sabiam que a vantagem bélica americana era abissal. O arsenal norte-americano chegava a 22 mil bombas nucleares. Através dos aviões espiões U-2 “era possível ver cada folha de grama da URSS”, vangloriou-se Allen Dulles, diretor da CIA. O poder da CIA se estendia: assassinou Patrice Lumumba, líder do Congo e tentou inúmeras vezes assassinar o dirigente cubano Fidel Castro.
A tensão era muito grande em relação à Alemanha, os soviéticos temiam que os EUA cedessem armas nucleares aos alemães. A propaganda anticomunista visando conduzir a opinião pública norte-americana a aceitar a corrida armamentista acabou por criar uma histeria coletiva com a criação de um programa nacional de construção de abrigos atômicos nas casas das pessoas e o direito de matar os vizinhos que quisessem invadir seu abrigo.

Em 1962, a guerra nuclear por um triz

Em 1962, a crise dos misseis soviéticos instalados em Cuba levou ao paroxismo a tensão e houve uma grave ameaça de deflagração da guerra nuclear. O generais queriam atacar Cuba, mas Kennedy resistiu: “se nós os escutarmos e fizermos o que eles querem, nenhum de nós sobreviverá para dizer a eles que estavam errados”, disse. O livro relata o episódio de modo emocionante. Foi o momento em que as duas máquinas militares estiveram a pique de deflagrar a guerra escapando do controle dos seus governantes.

Os autores dão indicações de que a morte do presidente John Kenney de alguma forma se deveu à insatisfação dos “altos escalões das comunidades de inteligência, das forças armadas e dos negócios, sem falar na Máfia, nos segregacionistas e nos cubanos a favor e contra Castro (...) a raiva contra ele era visceral.”

Com Lyndon Johnson na presidência, a guerra do Vietnã se ampliaria, se dariam a instalação de ditaduras militares na América do Sul, novo golpe na Grécia. Na Indonésia, obra da CIA, o banho de sangue só foi menor que o do Vietnã. Aliás, um dos capítulos do livro mais ricos em detalhes trata da guerra do Vietnã, do presidente Richard Nixon e de seu assessor Henry Kissinger. Um exemplo de sua política: segundo Le Duan, dirigente norte-vietnamita, os EUA ameaçaram usar armas nucleares treze vezes. Os autores também mostram a indústria bélica que se desenvolveu para sustentar a guerra.

A criação dos mujahedins, um tiro no pé

Em 1979, dois acontecimentos teriam repercussão histórica de longo prazo. A revolução dos aiatolás no Irã; e, com apoio das ditaduras da Arabia Saudita e do Paquistão, a formação, pelos EUA, de grupos armados fundamentalistas islâmicos para combater o governo pró-soviético do Afeganistão. Nos anos futuros os EUA teriam motivos para se lamentar diante do crescimento exponencial do movimento islâmico radical e em especial pelo ataque às torres gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001.

A partir dali, os Estados Unidos caminhariam para a direita talvez mais que em qualquer outro momento, mergulhando nas guerras fracassadas no Afeganistão e no Iraque, com apoio entusiástico da mídia, praticando a tortura e o assassinato em nome da defesa da democracia e dos direitos humanos.

Os autores perguntam: “quem foi o vencedor real? Depois de trilhões de dólares gastos, duas guerras, centenas de milhares de mortos no mundo todo, uma interminável guerra contra o terror, a perda das liberdades civis, uma presidência fracassada e uma extremamente maculada e o quase colapso da estrutura financeira do império, pode-se dizer que os EUA tiveram uma vitória de Pirro, em que suas perdas tornaram inútil a vitória”.

(Atualização de Resenha publicada em 2015 na revista Retrato do Brasil, da Editora Manifesto).

Livro
A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS
Por Oliver Stone e Peter Kuznick
355 páginas
Faro Editorial, 2015.


*Carlos Azevedo é jornalista, editor e escritor, trabalhou em jornais como Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Diário da Noite e nas revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas, Caros Amigos e Retrato do Brasil. Foi um dos fundadores do jornal Movimento e da revista Realidade e é autor do livro Cicatriz de Reportagem, reunindo suas melhores reportagens.
http://www.vermelho.org.br/noticia/290465-1

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Retalhos da Vida de Um Médico, de Fernando Namora

  • Domingos Lobo 


Crónicas do País da fome, do medo e da ignorância


Iniciando-se nas letras com As Sete Partidas do Mundo (1938), um romance da adolescência perpassado pelo estilo e influência da narrativa psicologista da Presença, Fernando Namora só em 1941, com o livro de poemas Terra, título que inaugurou a colecção Novo Cancioneiro, afirma a sua voz, pela mão do seu amigo e companheiro em Coimbra, João José Cochofel, no movimento neo-realista iniciando, já com alguma identidade discursiva, um estilo seguro, tematizando nesses poemas narrativos as feridas que o fascismo ia inculcando no tecido social, mormente nas comunidades rurais do Norte do País, realidade que o autor de Fogo na Noite Escura (1943) conhecia por origem e vivência. Este seu livro, o terceiro de poesia na obra do então jovem autor, será prelúdio de um processo de escrita que atingiu, dentro da estética neo-realista, embora com pontuais desvios de modo e rigor de análise, mais de 30 títulos publicados, entre romances, contos, crónicas e poesia, tornando-se Namora um escritor com raro acolhimento público, sucesso editorial que só encontra paralelo com a obra de Alves Redol.

A prosa romanesca de Fernando Namora pauta-se por uma adesão, expontânea e sem mácula, ao mundo dos outros. A sua experiência como médico rural, uma espécie de João Semana do século XX, pelas serras e aldeias raianas da Beira Baixa e, mais tarde, no Alentejo, permitiu-lhe construir uma obra banhada de atmosferas dramáticas, que o permanente optimismo do autor consegue modelar, arejar pelo pícaro, pela abordagem desconstrutiva do insólito que descreve.

Os graves problemas sociais das populações com as quais se cruza e contacta nas suas andanças de médico rural, esse estágio de quase submissão feudal que percepciona, permite-lhe reflectir nos textos um mundo fechado, imerso em brumas sebásticas, temente e conservador, que vive cercado de crenças ancestrais, de miséria, de ignorância, de obscurantismo – de medo.

O traço nítido, uma capacidade discursiva fluente e formalmente descomplexada, uma linguagem próxima do léxico comum, com uma impressiva componente poética, os comentários prosaicos que a pontuam, ilidindo o fluxo ficcional, são elementos que tornam esta escrita acessível a um vasto universo de leitores que em Namora encontram um autor próximo, sensível e preocupado com as grandes questões sociais do seu tempo.

Em Retalhos da Vida de Um Médico, percorremos os itinerários do país salazarento, interior, doente, matreiro e desconfiado, país das homílias da conformação, das leiras da fome, das casas celtiberas, da insalubridade quase medieval, da rudeza elementar e da transcendência. O jovem médico, acantonado em Monsanto, nessa que foi, no desvario folclórico do fascismo, a aldeia mais portuguesa de Portugal, percorre veredas, socalcos, caminhos abertos nas faldas da serra por onde as mulas, os burros e os carros de bois se esgueiram entre ventos e chuva, para socorrer os pacientes que o procuram quase sempre em situação extrema, quando desenganados de charlatães, bruxedos e mezinheiros, muitas vezes para apenas confirmar o óbito. Um povo triste e desamado.

A primeira série de Retalhos, publicada em 1949, fala-nos do período inicial das vivências do médico-escritor num meio que lhe é austero, da desconfiança dos aldeões, das aldeias e casebres perdidos nas serranias e lameiros das terras beirãs, numa escrita intimista, feita de fragmentos, de memórias, de perplexidades perante a dura realidade que o cerca, levando-o a questionar-se sobre a sua condição de médico e a valia da ciência numa sociedade fechada sobre os seus próprios mitos, ignorância e cupidez. Narrativas construídas a partir de apontamentos, de referências autobiográficas, nas quais o autor expressa as suas angústias, cansaços, incredulidade.

Raras estórias em Retalhos, da 1.ª série, se estruturam como contos, mas antes como se de uma narrativa-inquérito (sobre o País interior, as condições sócio-políticas que o cercam e inibem) se tratasse; de um percurso memorialístico, de tempo e circunstâncias singulares vividos no Portugal profundo, tolhido pela miséria e pela rudeza da vida e do trabalho. Romance-inquérito, lhe chamou Óscar Lopes, mas este Retalhos, contado na primeira pessoa, em discurso claro e apodíctico, aproxima-se, pelo menos nos textos da 1.ª série, de um diário, fragmentado e não cronológico, de uma experiência profissional que marcaria profundamente o autor e percorreria indelével grande parte da sua obra ficcional posterior.

Com vinte e quatro anos medrosos e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia despede-se da campina, ergue-se nos degraus das fragas para olhar com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a fuga dos rios. Prosa eficaz, segura, por vezes carregada de humor, picaresca, de um pícaro que não define individualmente o camponês, como em Aquilino Ribeiro, mas que em Fernando Namora adquire um sentido mais amplo e colectivo, que é quase amargo, desarmado, dorido olhar sobre a pobreza circundante.

A 2.ª série de Retalhos da Vida de Um Médico, publicada em 1963 estrutura-se de modo autónomo do 1.º volume. O médico-escritor está já no Alentejo, o sol e as planuras dos lugares do Sul permitem-lhe que o verbo se abra, se expanda em ressonâncias menos circulares, a realidade é diversa, a luta e o querer dos homens mais determinada e consciente, embora a miséria persista. A forma narrativa também muda. Entre a 1.ª série e a 2.ª há uma diferença de 14 anos e neste período o autor publica outros textos (alguns títulos serão afins de Retalhos)A Noite e a Madrugada (1950); Deuses e Demónios da Medicina (1952); O Trigo e o Joio (1954); O Homem Disfarçado (1957); Cidade Solitária (1959); As Frias Madrugadas (1959), que marca o regresso de Namora ao registo poético; Domingo à Tarde (1961).

O modo fragmentário da narrativa dos textos incertos na 1.ª série transforma-se num modo discursivo mais depurado, exigente em termos formais e orgânicos. As fímbrias brumosas que atravessam a 1.ª série dão lugar a uma intervenção mais explícita sobre o que denuncia e o autor opta pela forma do conto clássico para expressar o estupor, a procura de si mesmo e da matéria inesgotável do sofrimento humano, como refere Eduardo Lourenço. Alguns dos contos desta série serão exemplares de um modo mais evoluído de efabulação, de textura amadurecida no âmbito do discurso ficcional neo-realista: O Influente; O Homem que Queria Morrer Apenas Uma Laranja, estão nesse grupo de contos de modelar apuro e exigência estética e conceptual.

Retalhos da Vida de Um Médico é um exemplo do texto clássico do neo-realismo e uma das obras fundamentais da literatura portuguesa do século XX. Um documento raro, sensível e lúcido sobre a realidade profunda do Portugal fascista; país de silêncios, de medos e de revoltas crescendo no meio dos trigais que Namora, sem contemplações, põe a nu – país de ocultas misérias denunciado pela pena de um autor que nestes textos se revela indignado com o sofrimento dos seus concidadãos, e é esse modo de dizer a revolta, de a tornar humana e lídima, que torna estes textos actuais e de uma indefectível universalidade.

A presente edição da Caminho concentra num único volume as duas séries de Retalhos, mantendo os prefácios de Eduardo Lourenço e Gregório Marañón, constantes de edições anteriores.

Retalhos da Vida de Um Médico, de Fernando Namora – Editora Caminho, 2016 – Organização de José Manuel Mendes


http://www.avante.pt/pt/2244/argumentos/143073/