terça-feira, 28 de março de 2017

Cesário Verde - Contrariedades

* Cesário Verde


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!

                       

segunda-feira, 27 de março de 2017

Alexandra Lucas Coelho - Último texto




Amanhã vou trepar pelas paredes por causa do que esqueci. Muito obrigada a quem fez este jornal.

ALEXANDRA LUCAS COELHO
27 de Março de 2017, 7:33
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1. Este será o último texto que escrevo aqui. Põe fim a 20 anos e quero agradecê-los. O PÚBLICO foi um grande jornal do mundo graças a milhares de pessoas. Que bom ter feito parte dessa aventura.

2. Entrei para os quadros deste jornal em Março de 1998. Antes, escrevera nele por um ano, paga à peça, entre 1990 e 1991. A soma dos meus 20 anos remonta, pois, ao arranque do PÚBLICO. Como centenas de jovens de todo o país, tentei entrar para o primeiro grupo de estagiários quando o projecto foi anunciado. Já era jornalista com carteira mas ainda não terminara o curso (Comunicação, na FCSH da Nova). Quem estava a norte fez a prova no Porto. Quem estava a sul, como eu, fez em Lisboa. Lembro-me de uma plateia de cabeças no Fórum Picoas, num sábado de manhã, por certo demasiado cedo. Era 1989, eu tinha 21 anos, fazia noites na rádio, ainda havia estações piratas, escrevíamos à mão. Tempos antes, a TSF abrira candidaturas e as inscrições tinham de ser manuscritas. Chumbei logo nessa etapa (nunca soube o que revela a minha letra). E voltei a chumbar na prova do PÚBLICO: não me chamaram para o grupo dos que iam ser treinados por jornalistas lendários, como Adelino Gomes. Mas recebi uma carta a dizer que poderia propôr textos quando o jornal chegasse às bancas. Agarrei-me a isso, começando pelo Local, editado por Francisco Neves, onde muito aprendi. Ia saltando de secretária consoante quem folgasse. Até que a Paula Torres de Carvalho entrou em licença de parto e por uns meses atribuíram-me o lugar dela na Sociedade. Aquilo era um antro de craques da escrita, desde Rui Cardoso Martins (saído da faculdade) aos veteranos José Amaro Dionísio (poeta que eu lia) ou Rogério Rodrigues (pai de um Tiago então com 13 anos que hoje está no Rossio). O ciclone Vicente Jorge Silva soprava de uma ponta a outra na Quinta do Lambert. Escrevíamos em ecrãs a preto e branco. Os computadores eram umas caixinhas com uma ranhura para as disquetes. As disquetes serviam para transportar textos. As notícias chegavam à sala dos telexes, que jorravam rolos de papel com furinhos. A palavra Internet estava no ovo do futuro. Quando precisávamos de comunicar com o estrangeiro, íamos às máquinas enviar um fax, ou falávamos uma fortuna no telefone fixo. Os primeiros telemóveis de que me lembro são do ano seguinte, uns tijolos que as rádios usavam. Porque, em Março de 1991, quando Francisco Sena Santos se mudou da TSF para as manhãs da Antena 1, fui integrar a equipa dele, com salário fixo.

3. Mas fiz uma perninha no PÚBLICO logo depois, em Agosto, no golpe que levou ao fim da URSS. Eu estava de férias em Moscovo e a rádio ficara com o número de telefone da família que me alojava. Às cinco da manhã, Sena Sentos acordou-me a dizer que Gorbatchov fora sequestrado. Passei a enviada especial da rádio nesse momento. E, como era Agosto, e o correspondente do PÚBLICO, José Milhazes, estava de férias em Portugal, comecei a escrever para o jornal também, até Teresa de Sousa chegar, dias depois. Foi a minha primeira reportagem internacional, sem gravador, computador ou telemóvel. Entrava em directo por aquele telefone fixo do tempo de Brejnev, sendo que aquilo ainda era a URSS. Não podia ligar directamente para o estrangeiro, tinha de agendar com a telefonista. E, para o jornal, escrevia à mão e ditava.

4. Passaram sete anos. Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans deixaram o PÚBLICO. O começo de 1998 foi uma fase de transição no jornal, gente a sair, a entrar. Um dia ligou-me a Isabel Salema, que fizera parte daquele primeiro grupo de estagiários (como o Rui e a Alexandra Prado Coelho, que tinham sido da minha turma na faculdade, o Paulo Moura, o Pedro Rosa Mendes, a Bárbara Simões, o Vasco Câmara, tantos outros). Encontrei-me com a Isabel num café das Amoreiras e ela perguntou se eu queria ir para o jornal. Havia duas hipóteses na mesa: ser jornalista do Internacional ou ir editar o suplemento “Leituras”, até aí feito por Tereza Coelho, que acabava de sair. Ambas aconteceram, por essa ordem.

5. O Internacional era uma jóia do PÚBLICO. Ali estavam Teresa de SousaJorge Almeida Fernandes, enciclopédias vivas, mais a enciclopédia de Médio Oriente que era a editora Margarida Santos Lopes. Estava o impassível João Carlos Silva, que parecia nascido para editar, fosse o Internacional ou a revista Pública, durante anos. Estavam jovens grandes repórteres como a Alexandra, o Paulo, o Pedro, jornalistas especialistas em cada parte do mundo, dezenas de correspondentes internacionais. Aquele era o jornal que tinha arrancado na Guerra do Golfo de 1990, com Adelino Gomes e tantos outros como enviados. E continuava a ser. A minha primeira pasta foi Europa de Leste e Rússia (onde eu continuara ir, para a rádio). Assim me achei em Iasnaia Poliana, a terra dos Tolstoi, pelo Verão de 98.

6. Mas a Cultura ia montar uma equipa nova, e meses depois mudei-me para lá. Fui editar a secção, com a Isabel Salema, e o suplemento “Leituras” (que entretanto fora assegurado por Mário Santos, leitor raro, vastíssimo). A Cultura era outra jóia do PÚBLICO, outro antro de craques, todo um histórico desde a fundação, passando pelas barbas do ex-editor Torcato Sepúlveda. Ali moravam críticos de teatro como Manuel João Gomes! O luxo de o ouvir contar dos surrealistas, de Luiza Neto Jorge ou da vantagem de comer sopa logo pela manhã. Ou críticos de música como Fernando Magalhães, um génio que escrevia sobre musas celtas enrolado no cachecol do seu clube. Ali estava o Jaime Rocha dos poemas e das peças, que para nós será sempre Rui Ferreira e Sousa, o cabelo branco mais bonito das redacções. E grandes jovens jornalistas e/ou críticos, que se matavam a trabalhar: Kathleen Gomes, Lucinda CanelasJoana Gorjão HenriquesTiago Luz Pedro, Rui Catalão, Pedro Ribeiro. Isto era na Quinta do Lambert, já noutro edifício, mas meio mundo ainda fumava. O Vasco fumava à minha frente, a Isabel fumava à minha esquerda, e eu fumava no meio das torres de livros do “Leituras”, que se acumulavam entre o meu computador e a parede. Mesmo com parede, havia desmoronamentos. E ministros da Cultura que caíam, e ofertas de pancada. A guerra diária tinha muitas frentes, várias páginas conquistadas na reunião de editores da manhã, e ainda havia a guerra semanal dos suplementos. Aquela secção era um reboliço de gente a chegar com discos, a sair com livros, a ir para a rua, várias gerações cruzadas, um caldo de memória do século XX, património e contra-cultura, colectivos e solitários. A gente fechava páginas às tantas da noite, e podia continuar a escrever até chegarem as empregadas da limpeza, e então ia tomar o pequeno-almoço, para voltar à guerra, outra vez.

7. A Cultura teve vários suplementos desde o começo do PÚBLICO. Antes de o milénio virar, passou a ter dois, novos. Um para livros, música clássica, artes e arquitectura, o “Mil Folhas”, de que eu era editora. Outro para cinema, música pop, dança e teatro, o “Y”, de que o Vasco era editor. Foi o Eduardo Prado Coelho que sugeriu Mil Folhas, e eu abandonei logo a minha lista de maus nomes. Foi também o Eduardo que sugeriu jovens estudantes de Letras, como Clara Rowland e Francisco Frazão, para juntar aos muitos críticos já ligados ao jornal. Além de assinar uma página no “Mil Folhas”, o Eduardo foi sempre um conselheiro. Morreu há dez anos, e a falta que nos faz, em humor e inteligência, cultura e argúcia. Ninguém em Portugal ocupou o seu papel, os seus vários papéis. De resto, gostava de ter aqui espaço para agradecer a todos os críticos com quem trabalhei semanalmente, e me aturaram inexperiências, tantas. Além do Eduardo, havia vários colunistas regulares. O Jorge Silva Melo foi um deles, e não há dia em que eu receba aqueles mails dos Artistas Unidos sem lhe tirar o chapéu pela persistência, por tudo o que deu e dá a este país capaz de abandonar os melhores. Um dia, no meio de um descampado, discuti com o Jorge ao telefone, sei lá eu já porquê. Que parvoíce. Que saudades de o ler. Que sorte ter feito parte do meu trabalho ler gente assim, ter feito o “Mil Folhas” quando havia tantas editoras independentes, tê-lo feito com a Ivone Ralha a paginar, e o Jorge Silva como director de arte, sempre a brigar por mais ilustração. Ser possível fazer números especiais quando o Manuel Hermínio Monteiro morreu, a Sophia morreu, o Cesariny morreu (tantos desenhos, fotografias, manuscritos que ficaram algures no PÚBLICO). Poder ter Vítor Silva Tavares a escrever sobre Almada, e bater no computador a “cartinha” dele, que era o texto. Convidar Ernesto Sampaio a escrever crítica de teatro, recebê-lo na redacção, publicar os seus textos. Tantos textos do caraças.

8. Estive na Cultura por anos, com um pé volta e meia no Internacional. No 11 de Setembro, o PÚBLICO já estava no edifício de Picoas (terceira mudança), e atulhámos-nos todos madrugada dentro, para fazer uma segunda edição. Voei para o Paquistão logo a seguir, estive um mês a tentar passar a fronteira afegã, depois esperei sete anos para viajar pelo Afeganistão. Mas pelo meio, aconteceu o Médio Oriente: Israel/Palestina, Iraque, Jordânia, Líbano. E isso tem origem na Cultura. Tudo porque a nova Biblioteca de Alexandria ia abrir na Primavera de 2002, eu queria conhecer a cidade e a inauguração era um bom gancho. Propus ir um mês, como se fosse de férias, mas o jornal dava-me esse tempo, e eu escrevia para o jornal. Só que, quando aterrei no aeroporto do Cairo, a Margarida Santos Lopes ligou-me, e esse telefonema mudou o meu destino. O exército israelita estava a invadir as cidades palestinianas, na sequência de uma série de atentados suicidas. A Margarida perguntava se eu não podia ir cobrir aquilo. Eu não fazia bem ideia do que era aquilo, nem sequer onde era Ramallah, mas fui. Em vez de apanhar um autocarro para Alexandria, apanhei um avião para Jerusalém. Acabei por ir a Alexandria em finais desse ano porque a inauguração da Biblioteca foi adiada, mas a paixão por Jerusalém e tudo em volta dura até hoje, e devo-a à Margarida. Essa Primavera de 2002 teve cerco à Basílica da Natividade, recolher obrigatório em Ramallah, massacre em Jenin, e tiveram de me arrancar de Gaza ao fim de mês e meio a escrever todos os dias, porque já ninguém aguentava mais textos sobre o assunto, nem esperar que eu os enviasse às tantas da noite.

9. Aproveito para agradecer a toda a gente que esperou in extremis por textos meus sem arrancar cabelos, fosse de Gaza ou de Trás-os-Montes. E, a propósito de Trás-os-Montes, este texto é centrado na redacção de Lisboa porque era a minha, mas fui feliz um mês na redacção do Porto, correndo serras e léguas com o Paulo Pimenta ou o Nelson Garrido a fotografar. Tudo o que fizemos, dessa vez ou noutras, da nascente do Sabor ao Padre Fontes, passando pela visita a Margarida Cordeiro, e pelos territórios do cinema de António Reis, está entre as reportagens de que mais gostei na vida.

10. Além da Cultura e do Internacional, trabalhei vários anos na Pública, onde tive outra grande editora, a Dulce Neto. A Joana Amado foi minha editora em diferentes alturas, nomeadamente nos anos do Brasil. Gostaria de ter integrado em algum momento a equipa de José Vítor Malheiros na Ciência. O anjo da guarda da direcção e de todos nós era a Lucília Santos. Secretárias como Isabel Anselmo e Paula Dias não perderam a paciência, idem para desks como Rita Pimenta e Manuela Barreto, ou a telefonista São ou a Leonor Sousa, no Centro de Documentação, que me ajudou tanto. Coadjuvado por Nuno Pacheco, o director que tive por mais tempo foi José Manuel Fernandes, com quem travei dicussões tão épicas como daquela vez em que o relógio dele voou contra o vidro do gabinete. Essa foi por causa do Conselho de Redacção. De resto, da invasão do Iraque ao conflito israelo-palestiniano, estávamos em desacordo em quase tudo. Mas isto nunca se traduziu em qualquer obstáculo a que eu fosse enviada ou escrevesse, que eu saiba. Foi JMF quem deu luz verde a várias propostas minhas, como ir morar para Jerusalém como correspondente improvisada. Também foi ele quem me convidou a escrever crónicas, nem sei bem há quanto tempo, 18 anos? A primeira série chamava-se Erva-moira e era uma tortura tão grande que ao fim de um tempo deixei um bilhete a JMF, a dizer que era melhor esquecermos. Em Jerusalém, voltei a fazer crónicas, chamavam-se Oriente Próximo. Mais tarde, Viagens com Bolso, depois Atlântico-Sul. Optei por deixar os quadros em Dezembro de 2012, quando morava no Rio de Janeiro. Desde então, acordei com o jornal algumas reportagens (primeiro mensais, depois anuais) e uma crónica semanal, que desde a volta do Brasil se chama Não ficções. Esta é a última. Amanhã vou trepar pelas paredes por causa do que esqueci. Muito obrigada a quem fez este jornal, e a quem o leu. O PÚBLICO é desses muitos. Que inspirem quem vier.

Jornalista

domingo, 26 de março de 2017

Truman Capote e A Sangue Frio: afinal havia outro


Uma reportagem do Wall Street Journal revela a existência de um outro relato do crime que originou a obra mais memorável de Truman Capote. Foi escrito por um dos assassinos, Richard Hickcock, que alude, ao contrário do escrito por Capote, a um crime encomendado.
26 de Março de 2017, 8:18
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O escritor sabia da existência do segundo relato e tudo terá feito para impedir a sua publicação REUTERS/NEW YORK TIMES/HANDOUT

Na noite de 15 de Novembro de 1959, na casa de uma quinta em Holcomb, no Texas, dois homens surpreendem a família Clutter. Procuram um cofre com dez mil dólares e asseguram ao casal e aos dois filhos adolescentes que nada de mal lhes acontecerá. O cofre nunca aparece. Na manhã seguinte, os quatro Cuttler jazem mortos, baleados, na casa da quinta isolada. Muitos conhecem a história de um dos crimes mais célebres e infames na história dos Estados Unidos. Foi a partir dele, afinal, que Truman Capote criou A Sangue Frio, editado em 1966 e o livro mais aclamado do escritor americano, considerado o criador do jornalismo literário.

Que alguns factos menores foram alterados para servir a narrativa de Capote, era sabido há muito. Mas quanta liberdade tomou o autor? Essa é a questão que se coloca quando nos deparamos com a existência de um outro livro sobre o crime, mantido desconhecido durante cinco décadas. Foi escrito por um dos assassinos, Richard Hickcock, com a ajuda de um jornalista do Kansas, Mack Nations. A revelação foi feita esta semana numa reportagem do Wall Street Journal, que teve acesso à única cópia existente do relato de cerca de 200 páginas intitulado The High Road to Hell.

A principal novidade reside na possibilidade de, ao contrário do descrito por Capote, estarmos perante um crime encomendado – em A Sangue Frio, um antigo companheiro de cela de Hickcock, outrora empregado dos Clutter, conta ter revelado àquele a existência do cofre na casa da família e a obsessão com os dez mil dólares nele contidos que, a partir de então, tomou conta de Hickcock. Em High Road to Hell é identificado e referido brevemente alguém de nome Roberts, que encomendara o assalto e assassinato. “Ia matar uma pessoa. Talvez mais que uma. Conseguiria fazê-lo? Talvez recue. Mas não posso recuar, já tenho o dinheiro. Gastei algum dele”, escreve Hickcock. À luz deste facto estranha-se que, durante o julgamento, a sua defesa nunca o tenha referido e que a identidade do misterioso Roberts nunca tenha sido investigada.



Ralph Voss, professor da Universidade do Alabama e estudioso de Truman Capote e A Sangue Frio, desvaloriza a revelação. Explica-a pela desilusão de Hickcock com Capote, que julgava que poderia auxiliá-lo no seu caso desesperado. “Quando percebeu que não, procurou ganhar dinheiro pelos seus próprios meios. Não acreditaria em nada de Hickcock, nem julgo que o manuscrito acrescente algo de significativo ao publicado por Capote”.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ary dos Santos - O café

* Ary dos Santos


Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota


Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica


Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga


Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco


Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza


Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente


Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga


Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco


Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza


Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

terça-feira, 21 de março de 2017

Tutto è finito

(Danilo Errico – Otello Odorici – Sergio Odorici)

Nilla Pizzi
Tutto è finito ormai…
anche l’amore!
Tutto è finito ormai,
povero cuore!
Resta soltanto in te l’ombra
di quel passato che sogni sempre.
Tutto è finito ormai…
anche l’amore!
Tutto è finito ormai,
povero cuore!
Lacrime amare tu piangi,
ma non potranno mai più consolarti.

di Festival di Sanremo 1951

Tutto è finito

Si lo so, tutto è finito
non parlar, non dirmi niente
già da un pezzo l'ho capito
che il finale era imminente.
Si lo so, tutto è finito
sei d'un altro innamorata
già da un pezzo l'ho capito
questa scena l'ho aspettata.

La commedia dell'amore
è finita finalmente
hai spezzato questo cuore
non parlar, non dirmi niente.



Tutto è finito Mariù di Sergio Caputo

Non c’è champagne
ne Debussy
ne la tua gang
ne il gatto Fritz
sei solo tu
sotto le stelle del destino…
Ti sembrerà
che non ci sia
ne la tua ombra
ne la mia
ma è solo un film
è solo un trucco del destino
Ed è perciò che sono qui
per acciuffare un sogno beat
mi vuoi sparare sulle scale
o vengo su…
Sembra proprio che
tutto e’ finito Mariù…
è meglio che ci credi…
tutto è finito Mariù
se vuoi restare in piedi…
buffo è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

E certe volte vedo te
dieci anni fa
come in un flash
sei proprio tu…?
o è solo un trucco del destino…
I tuoi chaffeurs
volati via
nemici ormai…
comunque sia
mi pensi più
o è solo un trucco del destino…
Ed è perciò che sono qui
a rintracciare un sogno beat
e adesso dimmi…
sei scappata pure tu…?

Perché sembra che
tutto è finito Mariù…
quant’è che non mi vedi…
tutto è finito Mariù…
la terra sotto i piedi…
grande è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

Cerco tra le pagine
di un diario scritto mai
sulle tracce di fiori appassiti
e altre storie vecchie assai…

Sembra proprio che
tutto è finito Mariù…
è meglio che ci credi…
tutto è finito Mariù…
se vuoi restare in piedi…
buffo è il tuo cuore…
dice parole
prese da dove
io non lo so…

tutto è finito Mariù…
quant’è che non mi vedi…
tutto è finito Mariù…
la terra sotto i piedi.

sábado, 11 de março de 2017

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento
Entre as edições previstas para os próximos meses estão alguns inéditos e um novo volume reunindo as Memórias do grande escritor português.
LUSA 
11 de Março de 2017, 14:39
Foto

Os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, que se assinalam este domingo, serão celebrados com a publicação de três obras do escritor, uma delas com textos inéditos. A segunda edição do Festival Húmus, que lhe é totalmente dedicado, também decorre em Guimarães até domingo, assim encerrando o Ano Raul Brandão promovido por aquela autarquia.UB
Nascido no Porto a 12 de Março de 1867, Raul Brandão ficou conhecido por obras como HúmusOs PobresA Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore ou Os Pescadores.

Para assinalar o aniversário do seu nascimento, a editora Ponto de Fuga vai publicar no dia 7 de Abril O pobre de pedir, o último livro que Raul Brandão escreveu e que há mais de 30 anos não era editado. Publicado postumamente, o volume revela um "escritor assombrado pela ideia da morte".
Através da ficção, o autor "faz um balanço da sua vida", explicou à Lusa Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga: "Raul Brandão estava muito doente desde 1923. Sabia que a qualquer momento podia morrer e isso ficou muito presente na obra dele", acrescentou. O livro inclui ainda a reprodução de alguns manuscritos do escritor, um texto de enquadramento dos seus últimos meses de vida e um prefácio de João de Melo.
Pela editora E-Primatur, sairá em Maio A Vida e o Sonho – Inéditos, Antologia e Guia de Leitura, organizado por Vasco Rosa. Além de textos nunca antes publicados, inclui uma introdução biográfica e de contexto ao autor e à obra, bem como um guia de leitura. Segundo Hugo Xavier, editor da E-Primatur, será "uma grande antologia de Raul Brandão", cobrindo toda a sua produção, tanto jornalística quanto literária. Além dos inéditos, incluem-se "alguns textos publicados na imprensa da altura e que nunca tinham sido reunidos em livro, como notícias, crónicas e outros", precisou.
Antes, a 24 de Março, a Quetzal lança as Memórias de Raul Brandão. "Publicadas originalmente em três volumes, as Memórias de Raul Brandão constituem um dos exemplos maiores da nossa literatura memorialística", refere a editora.
Raul Brandão é considerado um dos maiores escritores portugueses, embora pouco lido. Segundo os especialistas em literatura Fernando Pinto do Amaral e Helder Macedo, foi "um dos escritores de vanguarda" portugueses que ficaram ensombrados pela presença de Fernando Pessoa no panorama literário da época. 


Raul Brandão já não está disperso

12/03/2013 - 00:00


Raul Brandão e a sua mulher, Maria Angelina, com quem manteve uma grande cumplicidade criativa. Na página seguinte, imagem de O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira DR

Está completa a reunião dos textos dispersos que Raul Brandão escreveu ao longo de mais de 40 anos de produção literária. A Pedra ainda Espera Dar Flor (Quetzal) são 500 páginas, resultado de dez anos de pesquisa de Vasco Rosa
Foram precisos quase dez anos para chegar a estas 500 páginas que reúnem os textos dispersos de Raul Brandão, o escritor português que faria hoje 146 anos e que deixou uma das obras mais diversificadas na história da literatura portuguesa. Jornalismo, romance, viagem, teatro, história e sempre uma atenção ao efeito estético da palavra. "É profundamente injusta a desatenção de que tem sido alvo um autor tão marcante da literatura portuguesa", desabafa ao PÚBLICO Vasco Rosa, o investigador literário e organizador do volume que a Quetzal acaba de lançar com o título A Pedra ainda Espera Dar Flor. "É uma frase dele, um título mágico, perfeito, que é um elogio extraordinário à vida, a vida que custa, e à qual ele sempre esteve muito atento em todas as suas manifestações."
Vasco Rosa não sabe falar de Raul Brandão de forma desapaixonada. Autor de antologias de textos de Alexandre O"Neill e, mais recentemente, de Vitorino Nemésio - em concreto a produção literária publicada pelo escritor açoriano quando tinha 20 anos e a ser editado em breve -, Rosa aponta o dedo à academia que, afirma ele, "não se ocupa com um trabalho de fundo que contemple aqueles que se podem chamar os autores do cânone". "Há um trabalho de interpretação, mas não um trabalho que abrace toda a obra." Foi neste quase vazio que em 2004 se pôs à procura de tudo o que Brandão escreveu e que andava disperso pelos jornais, meio perdido para a leitura, naquele a que chama um trabalho de "arqueologia literária" com o qual quer ajudar a entender a biografia literária do escritor. Como grande auxiliar, apenas Vida e Obra de Raul Brandão, a biografia que em 1979 Guilherme de Castilho dedicou ao homem natural da Foz do Douro, no Porto, que viveu parte da vida numa aldeia chamada Nespereira, em Guimarães, e morreria em Lisboa em 1930. "Não há nada mais recente que possa substituir essa biografia", lamenta o investigador, que desde então já publicou dois livros resultado de uma longa busca por jornais velhos e arquivos microfilmados: Lume sob Cinzas e Paisagens com Figuras (Ambar, 2006).
Os dois títulos são "os pais", como lhe chama, deste A Pedra ainda Espera Dar Flor, a colectânea que culmina a sua investigação brandoniana ("sabe-se lá, à procura de outras coisas ainda posso dar com um texto de Brandão", ri Vasco Rosa), acrescenta 50 "novos textos velhos" e é um exemplo da diversidade de escrita do autor de Húmus (1917) - romance a partir do qual Herberto Helder haveria de construir um poema (Húmus Poema Contínuo) tendo como inspiração palavras, frases, imagens e metáforas usadas por Brandão - ou As Ilhas Desconhecidas, o título publicado em 1926 que resultou de uma viagem feita aos Açores e à Madeira em 1924 e que é considerado um dos mais originais exemplares da escrita de viagem. Uma diversidade não apenas temática, de género ou estilo, mas também geográfica. "Ele publicou em quase todos os jornais, não importa de onde eram, regionais, locais, nacionais." Fez apenas uma pausa. Dez anos em que se dedicou à Seara Nova, um movimento que quis "refundar" e no qual se dedicou quase em exclusivo á investigação histórica.
Coca-bichinhos
Em cerca de 40 publicações, com datas entre 1891 - ano da estreia literária - e 1930 - o ano da morte -, Vasco Rosa encontrou memórias, cartas, crítica literária, esboços de peças de teatro, textos onde se pode encontrar uma proximidade com a reportagem, todos a evidenciarem, por um lado, a atenção à condição humana, mas também um lirismo marcante. "Nele, estas duas características são perfeitamente compatíveis", conclui Vasco Rosa, que fala de um autor difícil de catalogar. "Acho que há uma dificuldade em abordá-lo. Às vezes é muito pesado, muito duro. Veja-se o Húmus. Mas ao mesmo tempo tem aquilo que a literatura deve ter: impacto sobre as pessoas, e esse impacto foi tendo variantes conforme as estéticas de cada leitor e resistiu." Como pôde, acrescenta-se, numa altura em que Brandão volta a ser falado e relido, ainda que quase nunca tenha deixado de ser visto no teatro.
"Não é fácil", nota Vasco Rosa, mas há sempre a descoberta de um "enorme humanismo e isso é muito recompensador", sublinha. Não é fácil também digerir o capítulo a que chamou Lisboa Negra, com textos sobre a dureza da vida na chamada cidade branca. Em Setembro de 1902, escreve para O Dia: "Lisboa, à noite, oferece libertinagens boémias, desperta ao noctâmbulo prazeres de vagabundo e acorda delírios misteriosos de observação flagrante. Sob o clarão do sol, pelos bairros pobres, há máscaras doentias, arrastando-se, tonturas, embriaguez de luz, que pervertem os bustos, derreando-os, e lhes tira a insaciável, perversa ânsia de uivarem a desgraça."
Numa Lisboa diferente, mas com a luz também a escassear, Vasco Rosa fala desse negrume para dizer que Brandão também tem luz, e que o trabalho de recolha de textos não foi depressivo. Ao contrário. Quando muito obsessivo, tal como "Brandão era obsessivo, fosse na descrição de uma paisagem ou na reconstituição da vida numa viela". Diz também que o modo como construiu o livro seguiu os preceitos de Raul Brandão, ou seja: "Na distribuição dos capítulos, tentei ser o máximo possível fiel aos temas fulcrais dele. Tentei jogar o jogo dele para que as pessoas percebam que tudo se encaixa na obra em todos os seus cambiantes. Por exemplo, no capítulo a que chamei A Voz do Homem - que é também uma expressão dele - destaco um texto sobre o sacerdócio católico, escrito numa época em que os padres viviam como banqueiros, de uma maneira totalmente não espiritual. Ele vem dizer que a espiritualidade faz parte da vida."
Como no capítulo Os Pescadores está toda a génese do que viria a ser o livro com o mesmo título, uma relação com o mar muito próxima e sempre presente. Raul Brandão nasceu e cresceu na Foz, já se disse, e, filho "de gente do mar", descreveu a vida de quem partilhava com ele esse universo, "a atracção por essa vastidão", como salienta Vasco Rosa. "Ele foi, de certeza, quem trouxe o mar para a literatura portuguesa nesse sentido, a vida no mar."
Muda de tom quando é para pôr em evidência a relação do escritor com os jovens poetas do Porto, outro capítulo, onde cultiva uma poética que haveria de o contaminar desde o início, desde que escreveu com eles o manifesto Nefelibatas (ou habitantes das nuvens), para definir o simbolismo e o decadentismo. Entre esses poetas estava António Nobre, como Brandão natural da Foz. "O que o impressiona arrepia-lhe a alma até o dolorir - dum arrepio histérico, próprio dos que vivem uma vida interior, a seguir uma Ilusão, curvados. Tudo o fere: é um tímido, sem nada de expansivo, e deve estar mal diante do seu Amigo: a sós respira, e dobrado, a olhar para dentro, vive com o seu sonho", escreve em Só, por António Nobre, uma das crónicas desta colectânea onde fica clara também a admiração por Camilo Castelo Branco num texto que começa de forma imperativa, dirigido aos alunos da então 4.ª classe e que faz parte do Livro de Leitura para as escolas de instrução primária (1903). "Decora este nome. Pertence a um dos maiores escritores do teu país. Poucos, raríssimos como ele, manejaram, nos tempos modernos, a língua portuguesa; nenhum como ele encheu as páginas dos seus livros de tanto riso, de tantas lágrimas."
Numa perspectiva estética colocou-se ao lado de pintores. Escreveu e falou e conviveu de perto com Columbano Bordalo Pinheiro. Não deixou de se irritar com alguma da sua pintura, ele que também pintava, e chegou a comparar a sua escrita a pinceladas. Vasco Rosa pega na ideia e diz que este é um livro onde convergem todas as pinceladas das suas grandes obras.
Durante os mais de 40 anos da produção literária de Brandão são raras as citações, a referência a inspirações, embora seja notória a influência de Dostoiésvki, ou mesmo "de Goya", conforme lembra Vasco Rosa que sublinha, no entanto, a singularidade como grande marca de Brandão, o escritor que viveu "numa época de gigantes" - Eça, Garrett, Camilo. E que se inconformou com o teatro. Primeiro na crítica, depois passando à prática, com a escrita de peças que levavam ao palco o seu olhar sobre uma sociedade "dura para com o homem", uma das quais a meias com Teixeira de Pascoaes, escritor com quem conviveu de perto, e outra recentemente adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra, onde mais uma vez é notório o seu questionar dos modos de representar o real. Essa é outra marca de Brandão. "Pegando nesse texto, Oliveira mostrou como se pode falar de uma forma contemporânea de um autor intemporal, injustamente remetido para um plano secundário", salienta o responsável por esta colectânea que não se pretende substituir a nenhuma leitura de Brandão. "Não é esse o objectivo. Apenas o de ajudar a entender um homem e a sua obra, situando-os no seu tempo."



quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, de José Carlos Ary dos Santos

* Ary dos Santos

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

Manuel da Fonseca - um grande escritor



Para Manuel da Fonseca, a literatura era um sonho de viver. 

Por Baptista-Bastos|00:30

Recordo muitas vezes o meu amigo, o seu sorriso triste, a palavra rápida, a percepção imediata das coisas, a coragem inaudita; e, também, a sua abalada ternura pelos companheiros, as melancólica confissões. Manuel da Fonseca, um dos maiores escritores de sempre da literatura portuguesa, o mais felino dos sarcastas e o mais generoso dos amigos. 

Havia, nele, a placidez dos grandes sonhos e a nobreza de olhar os camaradas com o respeito que eles, muitas vezes, não mereciam. Para ele, a literatura era um sonho de viver, e feria-o quando, aparentemente, o ignoravam. Passou, há dias, o aniversário da sua morte, recolhido ao Alentejo que escrevera como ninguém, num fulgor magoado e com o olhar enevoado de desgostos. 

‘O Fogo e as Cinzas’, admirável livro de contos, cuja organização se deve a Carlos de Oliveira, à mulher deste, Maria Ângela de Oliveira, e a José Gomes Ferreira, é um trabalho de amor e uma doação ao espírito daqueles tempos. Outros grandes títulos do grande autor; ‘Seara de Vento’, ‘Cerromaior’, filmado por Luís Filipe Rocha com a paixão devida, e outros mais. 

Certo dia, sabedor de que o meu amigo andava de dinheiro em baixo, falei com Francisco Pinto Balsemão para a entrada de Manuel da Fonseca como colaborador do jornal onde eu era redactor. E assim nasceram crónicas admiráveis, que eu editava no suplemento de domingo, sob o título ‘Pessoas na Paisagem’, uma experiência que me deu grande felicidade. Pontualmente, o meu velho amigo publicou, durante anos, sem uma falha, um texto ímpar que falava do seu Alentejo com a grandeza imaculada de quem escreve sobre o que ama. 

Estive, agora, a reler o grande escritor, com a emoção de quem está, de novo, a ouvi-lo e à sua voz pausada e lenta, revendo os seus olhos pequenos e vivos, recordando a sua lúcida atenção às coisas, aos homens e ao seu tempo. Mas, sobretudo, recordando a amizade e o afecto, de que sinto a falta.

segunda-feira, 6 de março de 2017

“Tom The Dancing Bug” de Ruben Bolling

Este humor é sério. It's true
05.03.2017 às 23h00


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CÓMICO. A tira cómica existe desde 1990 e tem um apurado espírito político, que tem vindo a ser desafiado com a subida ao poder de Donald Trump
RUBEN BOLLING / UNIVERSAL UCLICK 2016
As tiras cómicas de “Tom The Dancing Bug” ganharam um prémio pelo seu apurado sentido crítico. É tempo de revisitar a obra do cartoonista Ruben Bolling: não há livros recentes (há sempre a internet), mas é mais atual do que nunca

Como é Carnaval e ninguém leva a mal, a Estante de Livros desta semana continua na senda da banda desenhada (já que na semana passada, o colega Pedro Cordeiro sugeriu uma bem disposta novela gráfica de Jeffrey Brown sobre o quotidiano dos jovens na Idade da Pedra) e apresenta uma sugestão de um livro que já foi publicado em... 2004. Mas apresenta-o como um isco para o leitor ir em busca das tiras cómicas mais atuais de “Tom The Dancing Bug”, na Internet. O seu criador, Ruben Bolling, cartoonista e comentador político, iniciou em 1990 este cartoon semanal, que não tem narrativa contínua. As personagens multiplicam-se mas, apesar de tudo, há uma ou outra recorrentes. E nenhuma delas é Tom, o inseto dançarino: o título destas tiras tem inspiração dadaísta e pode ser tudo e coisa nenhuma.
O que interessa é que, com quase 30 anos de vida, “Tom The Dancing Bug”, publicado ao longo das décadas em vários jornais e que, todos os dias, pode ser visto no site BoingBoing.net, acaba de ser distinguido com o prémio Herblock Prize Award, na categoria de cartoon editorial. Porquê agora? Porque ao longo de 2016, marcado pelas eleições norte-americanas, por vários acontecimentos 'nonsense' e pela inesperada (?) vitória de Donald Trump, a acutilância política dos desenhos de Ruben Bolling fez-se sentir. Senão, vejamos:
“Ruben Bolling criou o seu estilo único de cartoon político, que está cheio de alusões astutas e desfechos imprevisíveis”, escreveu Mark Wuerker, cartoonista político vencedor de um Pulitzer, citado pelo The Washington Post. “'Tom The Dancing Bug' levou o cartoon para um novo território com um imaginário ágil e alegorias provocativas”, acrescentou.
O vencedor, que irá receber o prémio em março, já veio agradecer a distinção. E afirmou: “Estou muito honrado, mas também triste por o prémio me ser atribuído pelo facto de satirizar, ridicularizar, parodiar e lamuriar-me contra Trump, durante a sua escalada até ao poder.”
“Thrilling Tom The Dancing Bug Stories”, de Ruben Bolling, Andrews McMeel Publishing, 224 páginas, a partir de €2,80 (usado, na Amazon)

O humor é político. Contudo, numa altura em que T-U-D-O é, de facto, político, convém dar uma gargalhada. Para tal, nada como visitar a obra deste cartoonista. “Tom The Dancing Cat” tem três livros publicados e, qualquer deles, passível de ser comprado pela internet, em segunda mão: “Tom The Dancing Cat” (1992), “All I Ever Needed to Know I Learned From My Golf-Playing Cats” (1997) e “Thrilling Tom The Dancing Bug Stories” (2004). Mas nada como uma visita à página BoingBoing.ne para rir (ou chorar) com as últimas novidades da Casa Branca.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Um poema de José Gomes Ferreira

* José Gomes Ferreira


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Armando Silva Carvalho - A conversa do poema e da vida

CRÍTICA LIVROS

A conversa do poema e da vida

Armando Silva Carvalho regressa com a novidade de quem tem na escrita um dos caminhos de maior solidão, pelo radicalismo da sua experiência do corpo, do ser humano, de deus e do mundo.