sábado, 21 de janeiro de 2017

José Carlos Ary dos Santos - A cidade é um chão de palavras pisadas

* José Carlos Ary dos Santos 

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.


José Afonso - "A Cidade" do disco "Contos Velhos, Rumos Novos" (LP 1969)

Letra de José Carlos Ary dos Santos 
Musica de José Afonso.

Ferreira Fernandes - Hoje

* Ferreira Fernandes 

Um dia, vi um homem parar um carro pobre, numa estrada de terra vermelha, à entrada de uma ponte. Sobre um pilar estava uma bacia de esmalte rachado e nela laranjas pequenas. "Quanto?", perguntou o homem com uma camisa modesta. O miúdo negro disse: "Dois angolares." Sem outra palavra, o homem abriu a mala do carro. O miúdo fez rolar as laranjas na mala. O homem pôs na palma da mão estendida uma moeda de cinco tostões, um quarto do preço pedido. O miúdo nem esboçou um protesto, ficou na berma a ver o carro partir e a sentir a poeira assentar.

Um dia, li um camponês russo a falar com um dos irmão Karamazov. Tudo no camponês era subserviência. E tinha o filho ao lado. O Karamazov não bateu, esmurrou ou pontapeou o camponês - gestos brutos que poderiam ter passado por luta violenta. Esbofeteou-o, com pancada seca e calma, de quem sabe que nunca teria reação. Nada doeu mais do que o filho ao lado.

Um dia, na ala militar do aeroporto de Bogotá, estive na conferência de imprensa dada pelo embaixador americano. Ele falou sobre a luta contra os narcotraficantes e a esperança de apanhar em breve Pablo Escobar, o capo de Medellín. Depois, o embaixador disse que tinha mais declarações a fazer mas essas eram para os americanos e os da imprensa estrangeira. Os jornalistas colombianos saíram, cabisbaixos, expulsos em sua casa.

Um dia, entrevistei um líder guerrilheiro, num jango, enorme cubata circular. O líder esperava--me ao fundo, e as paredes do jango estavam cheias de dirigentes guerrilheiros e conselheiros do líder. Ao entrar, reparei, nunca soube porquê, num jovem de barba escassa e casacão escuro (era cacimbo, inverno austral), sentado à entrada. Finda a entrevista, o líder acompanhou-me à entrada, braço sobre o meu ombro. De repente, fez-me rodar e encontrei-me frente ao jovem de casacão, já de pé. "O senhor jornalista sabe quem é?", perguntou o líder. Adivinhei mas disse que não. "É o Wilson que vocês em Lisboa dizem que matei. Não o quer entrevistar?", disse o líder, e logo apareceram dois microfones. "Não entrevisto presos", disse eu. O jovem tinha os olhos mortos e foi mesmo morto, semanas depois, ele e a família.

Um dia, eu ia de elétrico e vinham duas peixeiras da Ribeira. Elas eram cabo-verdianas e falavam crioulo entre elas. Ao passar pelo Rato (os elétricos ainda por lá passavam), um passageiro endoidou de ódio e pôs-se a mandar as mulheres "para a terra delas." Havia lugares vagos mas elas não tinham ousado sentar-se por causa do cheiro das saias largas. Os insultos do homem apanhou--as com português curto e calaram qualquer resposta. Pousaram os olhos no trabalho, nas canastras deitadas no chão. Nem pareceu terem dado conta dos pescoços que não se viraram. Mas deram.

Um dia, eu estava com um militar, que então era do meu lado, a dizer a uma pessoa detida, porque do outro lado, que sim, podia pedir ao soldado de plantão para ir comprar cigarros à messe. Regressado o soldado, o preso deu--se conta de que, afinal, também não tinha fósforos: seria que lhe podiam acender o cigarro? "Ah, era para fumar? Isso, na cela, não pode", ouvi o "meu" militar a dizer, gozando com o detido confuso.

Um dia, era noite de verão, eu ouvia um homem a assobiar numa esplanada. Ele estava sozinho à mesa e bebia cerveja. Assobiava mambos e boleros, as janelas abriam-se e às varandas assomavam suspiros. Ele sabia e gostava do seu sucesso, na sua rua, mas fazia de conta que não o via. No fim de um bolero de Lucho Gatica, ele ia aclarar a garganta com um gole mas o copo voou até ao chão da esplanada. A mulher do homem do assobio estava com uma mão à cintura e a outra a apontar a casa: ala! Ela nunca produziu outro som, senão o copo a estilhaçar-se. Sempre calada, com o silêncio da autoridade que nunca conheceu resposta. Ele ia à frente dela, cabeça enfiada nos ombros, olhando o passeio, indiferente à rua e à humilhação. Mas não estava.

Um dia, um guarda-costas que me acompanhava em Argel, perguntou-me se eu sabia o que era uma bûche de Natal. Disse-lhe que sim. Era o bolo em forma de tronco de árvore que os franceses comem no fim do ano (como o nosso bolo-rei). Por essa altura, os terroristas islâmicos punham bombas por toda a Argélia e degolavam os ímpios que se expunham. O meu guarda-costas era bom muçulmano, mas tinha saudades da bûche, da infância com vizinhos franceses. No Natal passado tinha sabido de uma padaria que as vendia às escondidas. Foi lá, saiu pela porta de trás mas julgou adivinhar olhares ameaçadores. Abriu a camisa e escondeu o bolo, coseu-se às paredes e apressou o passo. Entrou em casa e tirou o bolo amassado, o chocolate já delambido - os filhos e a mulher olhavam-no, e ele chorou, derrotado. O meu guarda-costas era tropa de elite.

Um dia, depois desses dias que me formaram, hoje, eu dei-me conta de que um homem que varreu os adversários do seu partido amesquinhando-os, que apoucou deficientes, que rebaixou o heroísmo autêntico na guerra de um correligionário seu (ele, que para fugir dessa mesma guerra pretextou doenças que não tinha), que se me apresentou, em palcos públicos, sem compaixão por pais que perderam o filho, que achincalhou as doenças, verdadeiras ou inventadas por ele, da adversária, que levou a humilhação como a arma principal da luta política, um dia, dizia eu, vou ver esse homem a tomar o poder mais poderoso do mundo. Contra ele recuso-me, neste dia, a discutir as ideias dele, políticas, económicas ou ecológicas. A partir de amanhã, certamente. Hoje, tenho a dizer, tão-só, que é um dia desgraçado.


http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/hoje-5617006.html

José Carlos Ary dos Santos - TRÊS ADEREÇOS RECEBIDOS COMO HERANÇA

* José Carlos Ary dos Santos

A Peliça

Catarina da Rússia,minha prima

pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina

que desabafa muita viscondessa.

O Chicote

Meu tetravô polaco que era conde

de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento

e um chicote cossaco

uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.

O Espelho

Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,

que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto

Sancho Pança.

De Ary dos Santos

José Carlos Ary dos Santos - Infância

* José Carlos Ary dos Santos


Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
Talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala
nem nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DEPOIMENTO DE MARCELO À COMISSÃO DE INQUÉRITO DO PSD*

DEPOIMENTO DE MARCELO À COMISSÃO DE INQUÉRITO DO PSD*
SEXTA-FEIRA, 20 DE JANEIRO DE 2017
PUBLICADO POR ANTÓNIO SANTOS

O que as pessoas mais me perguntam é se sou mesmo como na televisão. Pode escrever aí que sim. Costumo dizer que o que nasce torto não se endireita. Bom, tenho esta memória de estar a brincar na quinta com os filhos da criadagem e vem de lá o papá apavorado, a levar-me dali ao colo, como se me resgatasse do cativeiro de canibais africanos, a dar-me um raspanete dos antigos, «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?», a sacudir-me uma sujidade invisível da camisa, a explicar-me que o meu nome não é por acaso, a repetir-me «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?». E não percebi. Mas percebi outra coisa mais importante: há mais do que um tipo de poder neste mundo.



Imaginam o que vale para um pobre diabo que nem a quarta classe tem, chegar o filho do Sr. Ministro, afilhado do Marcelo Caetano que manda na Nação e nos pretos e que agarra no telefone e é «Sr. General, arranque-me as unhas de fulano» ou «Sr. Comandante, mande beltrano para o Tarrafal» olhar para baixo, com cândida bondade, e perguntar assim: «como é que está a pneumonia, Sr. José?». Eu, a pedir-lhes a eles, a gente a que só se pedem mordomias e limpezas, a gentileza de nos deixar brincar com o filho? Bom, claro que isto nos confere um poder diferente, no meu entender maior, que a chibatada e a ameaça. Mas oiça, escreva isto: não é teatro. É genuíno. Sempre foi. Íamos jogar bridge ao Estoril com os filhos dos Ulrich e os irmãos Mello, com condes, baronesas, milionários, latifundiários e os criados que a eles baixavam a cabeça, subjugados, a mim respeitavam, sorriam. É isso que me dá prazer, sentir-me um anjo descido à terra, condescendente, misericordioso, tão simples, tão humilde e tão bom, apesar de tão poderoso que as pessoas nem acreditam.


Bom, uns anos mais tarde mandavam os desgraçados pequeninos, que entretanto se fizeram desgraçados crescidos, matar pretos em África e eu, que sendo filho de quem era nem precisava de me incomodar com uma palavrinha lá no Ministério, fazia questão de ir às despedidas, tristíssimas, sem jeito nenhum, dar um abraço aos desgraçados. E eles lá iam matar pretos mais consolados, cheios de orgulho nacional e brio civilizador por terem abraçado o filho do ministro, o afilhado do Presidente do Conselho. Isto ainda você não era vivo! Acha mesmo que é agora o Conselho de Jurisdição Nacional do PSD que me vai ensinar a ficar quietinho no meu galho? Escreva isto: não me basta o meu galho, eu quero a árvore inteira.

Bom, só com grande falta de visão é que o PSD pode achar que não sirvo os interesses do partido. Quem vota no PSD são os pobres diabos. Muitos nunca se sentaram numa cadeira de dentista, você sabe lá os hálitos, não ponha aí isso. Ninguém dá nada por eles, tratam-nos a pontapé em todo o lado. Sempre em filas, com um ar muito amarfanhado para receber o subsídio, a pensão, a senha para qualquer porcaria, até que chega a comitiva… e eles pasmam. Pasmam! Ficam a ver o cortejo, as bandeirolas, a GNR, os cavalinhos… o pobre sempre gostou de cortejos, há séculos! E de repente saímos do carro e eles, já prontos para se desfazerem em vénias ou receberem da GNR uma paulada na cabeça por estarem demasiado perto, mas não, é para lhes dar um abraço, uma palmadinha nas costas, brincar às brincadeiras deles nos cabeleireiros muito possidónios, às tabernas com copos mal lavados. É que eu venho cá abaixo, sabe? Nem sempre é fácil… com os pobres sempre a falar muito alto, a babar pus de pústulas infectadas, a cuspir esses na conjugação dos verbos, sem saúde, sem trabalho, sem casa, sem nada a não ser o nosso muito merecido afecto. Merecido afecto. Ponha isso aí. Porque eu sei o que vale para aquela gente poder dizer que ao menos um dia abraçou o Presidente, ou poder mostrar uma fotografia comigo. E o PSD também devia saber.


Bom, ainda no outro dia, estava um frio de rachar, fui alimentar pobres. Deviam ter visto: eu a querer levá-los para o abrigo, como se leva um gatinho para o gatil, preocupado com o frio dos bichanos, e eles, valha-nos Deus, nem isso percebem. É preciso chamá-los com um ensopado sofrível (disse que estava óptimo) para se virem aquecer um bocadinho ao pé das câmaras. O PSD tem que entender uma coisa, se as pessoas não vão ter dinheiro para se aquecerem no Inverno, convém aconselhá-las a se aquecerem bem: «vista muitas camadas de roupa e proteja-se do frio!», compreende a lógica? Ou então acabamos todos numa salgalhada como em 74. Bom, é este o meu condão, dom e vocação: dar abrigo aos sem-abrigo para que não sejam gente a querer casas. Dar os restos dos restaurantes que podiam ir para o lixo com igual prejuízo aos pobrezinhos, para nunca sejam trabalhadores a querer dignidade. O meu lema é: todos os sem abrigo merecem um abrigo, todos os pobres merecem uma sopa, todos os portugueses merecem um abracinho. Enxergam a diferença? Tratam as pessoas a pontapé e elas andam para aí aos gritos a exigir habitação, direitos, trabalho e o diabo a sete quando no fundo bastava serem um bocadinho simpáticos e andavam os Zés e as Marias todos contentes, com abrigos, restos e abraços.

E a prova de que tenho razão é que saí limpinho do Estado Novo. E agora vêm uns miúdos, dizer-me, a mim, que estou a fazer o jogo da esquerda? Porque, ao contrário deles, tenho dois dedos de testa e sei construir o momento? A mim, que era criança e descobri que não me chamava «menino» no dia em que me começaram a tratar por «sua excelência». A mim, que aos doze anos jogava ténis com oficiais franquistas no chalé do Estoril e aos catorze brincava com a pistola que o Hitler deu ao duque de Windsor, que deu aos Espírito Santo? A mim, que ao longo da minha vida política só vos dei benesses, cortes salariais, isenções fiscais, privatizações, revisões constitucionais? A mim, que durante anos andei praticamente sozinho a preparar a presidência, a fazer a propaganda que o possidónio de Massamá (coitado, nisso é como os pobres) nunca teve jeitinho nenhum para fazer?


O Passos nunca poderá compreender isto. Esta liderança trata com o povo como o papá tratava com os pretos: acha que dando-se-lhes a mão a beijar e eles querem lambuzar o braço todo. Confundem afectos com bolchevismo. Mas logo a seguir ao 25 de Abril e foram todos para o chilindró ou para o exílio, era eu que ia fazer visitinhas aos Espírito Santo na prisão, era eu que andava a arriscar o couro, a pedir aos amigos estrangeiros para darem um jeitinho lá no banco, de embaixada em embaixada a diligenciar pelo futuro deles. E agora chamam-me esquerdista… A mim, que trocava cartinhas com o chefe da Nação para ver como se havia de fazer com os comunistas? A mim, que sou presidente vitalício da Casa de Bragança porque a direita charmosa é toda monárquica, só o possidónio de Massamá é que não percebe isto. A mim, que faço mais pela direita sozinho que PSD e CDS juntos, ou acham que quando quiserem fazer a revisão constitucional é ao Santana Lopes que vão pedir ajuda? Deixem-me rir. A mim, que passo a vida no meio de gente a tresandar a chulé para no final do dia vos promulgar o descontozinho da TSU? A mim, eleito com 50% dos votos de 50% dos portugueses? A mim, que se gozavam com a Santa Madre Igreja era eu que vinha logo pedir censuras, cabeças e flagelações? A mim, que em 69 não traí o Américo, Deus o tenha, quando foi de pregar um susto aos estudantes? Não escreva esta parte. A mim, que passava férias explêndidas com o Salgado no Brasil e tratava por tu a alta finança até eles começarem a fazer asneiras vistosas? A mim, que depois de dez anos com o Cavaco moribundo e comatoso dei mais uma presidência ao partido?


Os senhores da Comissão de Inquérito perguntem lá ao Conselho de Jurisdição, à Comissão Política, a quem quiserem: não querem partir a espinha aos sindicatos? Então ajudem-me a sarar as feridas sociais de tanta greve e tanta manifestação. Não querem privatizar a Saúde? Então parem de fazer cara de mau e venham vender rifas comigo para ajudar os leprosos. Não querem baixar os salários? Então preparem-se para se sujarem, que os afectos trazem piolhos. Não escreva isso, escreva antes isto: esbanjem nos afectos e poupem nos salários.

Atentamente,
Marcelo Rebelo de Sousa
Militante n.28051928 do PPD-PSD


*Este texto é improvavelmente fictício

PUBLICADO POR ANTÓNIO SANTOS

HTTP://MANIFESTO74.BLOGSPOT.PT/2017/01/DEPOIMENTO-DE-MARCELO-COMISSAO-DE.HTML


“Os Últimos Dias da Humanidade”, uma peça de Karl Kraus

***
 

20 de Janeiro de 2017, 16:01

Por


Depois da paz, só guerra

O
Teatro Nacional S. João desceu a Lisboa, ao D. Maria II, para uma curta temporada de “Os Últimos Dias da Humanidade”, uma peça de Karl Kraus encenada por Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso. Kraus, checo (1874-1936), escreveu esta diatribe contra a Primeira Guerra, enquanto os delírios patrióticos santificavam a mortandade. “Os diálogos mais inverosímeis aqui travados foram pronunciados nesta exacta forma; as mais cruéis fantasias são citações”, explica. Metade do texto são citações de tudo, do Estado-Maior, de ministros, da imprensa, da voz popular. A montagem febril mostra-se então como é: uma leitura do horror, em que todos os personagens são irrealmente leves, só têm um leve traço de carácter (o “optimista”, o “eterno descontente”), habituados que estão à fome, à mentira, à manipulação, aos sonhos de purificação e império , portanto, ao deserto das emoções. “Cada som é incomparavelmente autêntico, mas no conjunto deixam-nos perplexos, como os oráculos”, escreveu Walter Benjamim sobre este teatro.

São então sons; fora dos cânones teatrais dessa era, o que aqui temos é uma leitura (Brecht terá sido então dos poucos a perceber o que era esta representação). Ora, para Kraus, como a “indústria da cultura”, a imprensa, era a responsável pela excitação do militarismo e pelo conformismo do ódio, responde-lhe colocando em cena “máscaras do Carnaval trágico”, pois o teatro quer “ensinar a ver abismos ali onde estão lugares-comuns – esta seria a obrigação pedagógica de uma nação que cresceu em pecado; seria a salvação dos bens da vida perante os bandos do jornalismo e as grilhetas da política”. As máscaras falam, nós ouvimos, é a política da guerra.
Com a imensidão da tragédia, o tempo parou e restam os sons. Não sabemos o que vem depois mas, diz-nos Kraus, é só mais guerra, a paz é impossível. Em 1933, ano de Hitler, escrevia “Não me perguntem em que andei ocupado./Mantenho a mudez;/e não digo os porquês./Reina o silêncio num mundo destroçado./Faltou ao verbo alento;/a fala é já sem tento./E sonha-se com um sol que ria sem cessar./Tudo fica para trás;/depois – tanto faz./A palavra morreu, com esse mundo a acordar.” A palavra morreu no meio de tantas palavras, reina o silêncio, é a guerra.
“A Noite da Iguana”, de Tennessee Williams, norte-americano (1911-1983), é encenada por Jorge Silva Melo com os Artistas Unidos (o Teatro do Bolhão representou esta peça há meia dúzia de anos) e, após o S. Luís, vai para o Porto e outras cidades. Duas décadas depois de Kraus e é a guerra seguinte, mas lá longe, os nazis que veraneiam no hotel Costa Verde, no México, festejam os bombardeamentos sobre Londres. Só que, ao contrário dos “Últimos Dias”, esta é uma história de pessoas e não de leituras. Destroçadas, febris, são misteriosas porque imprevisíveis. Só grandes actores podem fazer estes sofridos corpos que se procuram no devaneio do rum, no deus perdido, nos encontros fúteis ou no sexo distraído. N’”A Noite”, correm em frente para ficarem na sua colina, de onde olham para o mar, não sabem para onde vão e se vão. O tempo também aqui parou, mas é porque os personagens mergulham em si mesmos.
O conto foi escrito num “período desesperado da minha vida”, contava Williams, depois de ter feito o percurso da Cidade do México até este hotel, em 1940, tinha 29 anos. Ele é como Shannon, o ex-reverendo alcoólico, dilacerado, que se quer deitar na rede do cenário e falar com Fred, que já morreu. Não se sabe o que fará agora, mas não fará nada. Está cansado.
As duas peças falam-nos portanto de guerras diferentes, mas sempre do perigo do silêncio. Entre sons e emoções, esse silêncio é a guerra que continua, é o sofrimento de dentro de nós. Entretanto, Trump tomou posse. Perguntaria Kraus: “A palavra morreu, com esse mundo a acordar”?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/01/20/depois-da-paz-so-guerra/

Bertold Brecht - Sobre o significado da décima do número 888 da Fackel (outubro de 1933)

* Bertold Brecht

Sobre o significado da décima
do número 888 da Fackel
(outubro de 1933)


Depois de fundado o Terceiro Reich,
Só uma breve mensagem chegou do eloquente.
Num poema com dez versos
A voz dele ergueu‑se, para lastimar sem mais
Não ter força bastante.
Quando os horrores atingem certa dimensão,
Os exemplos esgotam‑se.
As malfeitorias multiplicam‑se
E os gritos de dor calam‑se.
Saem insolentes os crimes para a rua
E escarnecem alto da descrição.
Ao que está a ser estrangulado
Ficam as palavras presas na garganta.
Espalha‑se o silêncio e, visto de longe,
Semelha assentimento.
O triunfo da força
Parece consumado.
Já só os corpos mutilados
Dão notícia de que ali campearam criminosos.
Sobre as casas arrasadas já só o silêncio
Denuncia o crime.
Terminou pois o combate?
Pode o crime ser esquecido?
Pode enterrar‑se os assassinados e amordaçar‑se as testemunhas?
Pode a injustiça ganhar, mesmo sendo a injustiça?
O crime pode ser esquecido.
Os assassinados podem ser enterrados e as testemunhas, amordaçadas.
A injustiça pode ganhar, mesmo sendo a injustiça.
A opressão senta‑se à mesa e começa a servir‑se
Com as mãos ensanguentadas.
Mas os que carregam com a comida
Não esquecem o peso dos pães; e a fome atormenta‑os
Ainda quando a palavra fome está proibida.
Quem disse fome foi abatido.
Quem gritou opressão foi amordaçado.
Mas os que pagam os juros não esquecem a usura.
Mas os oprimidos não esquecem o pé que lhes pisa o pescoço.
A violência não atingiu ainda o ponto máximo
E já começa de novo a resistência.
Quando o eloquente pediu desculpa
Por a voz lhe falhar,
O silêncio apresentou‑se ante o juiz,
Tirou o lenço do rosto
E deu‑se a conhecer como testemunha.


BERTOLT BRECHT
Trad. António Sousa Ribeiro
.http://www.tnsj.pt/home/media/pdf/Manual%20de%20Leitura%20%C3%9Altimos%20Dias%20final.pdf

José Mário Silva - PERIGO DE EXPLOSÃO

* José Mário Silva

É melhor fechares os olhos,
meu amor,
antes que o mundo inteiro 
seja um incêndio.
Os ventos todos fechados
dentro da minha mão.
Quantos ciclones queres?
Procurava nos outros 
a ternura,
mas só encontrava
poços cheios de ódio
e nitroglicerina.
Aquele poema, 
ao contrário dos outros, 
tinha pólvora.
Só lhe faltava o rastilho.
Éramos rebeldes por sistema,
a sonhar com uma revolução por dia.
À tardinha, na esplanada, 
bebíamos um cocktail molotov.
O terrorista apaixonado 
carregava, às escondidas,
uma bomba-relógio.
Era no peito.
Era o coração. 


Partilhado por Paula Pereira

Como a BD nos contou o Holocausto

Maus (1980), a obra seminal de Art Spiegelman, é só a face mais visível de um enorme icebergue que uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, se propõe explorar exaustivamente

Uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, inventaria 75 anos de uma produção espantosamente prolixa – e aparentemente inesgotável.
***



É preciso procurar muito para encontrar um tema sério da história do século XX que não tenha ainda sido vasculhado pela banda desenhada – do insanável conflito israelo-palestiniano (Palestina ou Gaza, de Joe Sacco) à condição árabe na era do terrorismo global (O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf), passando pelo Irão da Revolução Islâmica (Persépolis, de Marjane Satrapi); da catástrofe individual e colectiva que foi a sida (Comprimidos Azuis, de Frederik Peeters) ao lento (e turbulento) coming out do Ocidente, com todo o seu historial de traumas familiares (Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar, de Alison Bedchel); da nossa Guerra Colonial (Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia) à má consciência da África do Sul que o apartheid ainda divide ao meio (Papá em África, de Anton Kannemeyer) e ao Brasil fatalmente segregado de ontem e de hoje (Morro da Favela, de André Diniz), só para mencionar títulos que tiveram edição em Portugal.


Também é preciso procurar muito para encontrar um tema sério da história do século XX que tenha sido mais vasculhado pela banda desenhada do que o Holocausto. Maus (1980), a obra seminal de Art Spiegelman, é só a face mais visível de um enorme icebergue que uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, se propõe agora explorar exaustivamente: “De 1942 até hoje, centenas de artistas desenharam a Shoah. À medida que as vítimas e as testemunhas deste crime único na história desaparecem inelutavelmente, a questão da sua representação torna-se cada vez mais central”, sublinham Marie-Édith Agostini, Joël Kotek e Didier Pasamonik, os comissários de Shoah et Bande Dessinée: de l’ombre à la lumière, esclarecendo as motivações deste “percurso histórico e artístico” que se propõe mostrar como ao longo dos últimos 75 anos a ficção mobilizou o Holocausto, dos comics americanos à produção franco-belga, onde o tema está presente desde 1944 (La Bête est morte!, de Calvo). É um inventário colossal, que vai da primeira obra a inscrever a Shoah no repertório da banda desenhada, cujo autor acabaria gazeado em Auschwitz (Mickey au camp de Gurs, de Horst Rosenthal, pequeno álbum composto de 15 aguarelas, com encadernação manual, “publicado sem autorização de Walt Disney”, como afixava a capa), às memórias de segunda e terceira geração activadas em livros mais recentes como I Was a Child of Holocaust Survivors (2006), da canadiana Bernice Eisenstein, Property (2013), da israelita Rutu Modan, ou Nous n’irons pas voir Auschwitz (2011), do francês Jérémie Dres – sem esquecer, claro, o trabalho a todos os títulos fundador de Will Eisner e o caso sem paralelo de Miriam Katin, a única sobrevivente do Holocausto que fixou o seu testemunho em BD.

Acompanhando esta exposição que ocupa o Memorial da Shoah de 19 de Janeiro até 30 de Outubro, um programa de conferências juntará autores e historiadores em mesas-redondas que discutirão, entre outros assuntos, Porque é que os super-heróis não libertaram Auschwitz? (22 de Janeiro), “Arte menor” e questões maiores (5 de Fevereiro) ou o lugar de Varsóvia na banda desenhada (5 de Março). Terminadas as mesas-redondas, encerrada a exposição, o Holocausto continuará a ser um dos assuntos mais inesgotáveis do nosso passado comum – e a aparentemente inesgotável livraria do Memorial da Shoah continuará a ser um dos melhores lugares do mundo para o aprofundar.

https://www.publico.pt/2017/01/19/culturaipsilon/noticia/como-a-bd-nos-contou-o-holocausto-1758634

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Alda do Espírito Santo - Angolares

* Alda do Espírito Santo


Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar...
Caleima2, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares1
na luta com o gandu3
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p'la fome de cada dia.


Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas4 em fila,
abrigando cubatas,
izaquente5 cozido
em panela de barro.


Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andante
por sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P'ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar1
"Terras tem seu dono".


E o angolar1 na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.


P'ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu3,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.


_________
1 - Angolar: grupo étnico são-tomense. Segundo a tradição portuguesa, sem confirmação científica, teria naufragado, em frente ao extremo sul da Ilha de São Tomé, um barco transportando cativos (1550). Estes, logrando alcançar a costa, teriam dado origem ao Povo Angolar. Admite-se, todavia, que os angolares tenham alcançados a Ilha por seus próprios meios, provenientes do Continente Africano;
2 - Caleima: ondulação forte do mar;
3 - Gandu: tubarão;
4 - Quissanda: tapumes feitos com folhas de palmeira;
5 - Izaquente: frutos cujas sementes são caracterizadas por um alto poder energético.



http://aldadoespiritosanto1001poets.blogspot.pt/2010/11/angolares.html

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Alda do Espírito Santo - Avó Mariana

* Victor Nogueira


Avó Mariana, lavadeira
dos brancos lá da Fazenda
chegou um dia de terras distantes
com seu pedaço de pano na cintura 
e ficou.
Ficou a Avó Mariana
lavando, lavando, lá na roça
pitando seu jessu1
à porta da sanzala
lembrando a viagem dos seus campos de sisal.


Num dia sinistro
p'ra ilha distante
onde a faina de trabalho
apagou a lembrança
dos bois, nos óbitos
lá no Cubal distante.


Avó Mariana chegou
e sentou-se à porta da sanzala2
e pitou seu jessu1
lavando, lavando
numa barreira de silêncio.


Os anos escoaram
lá na terra calcinante.


- "Avó Mariana, Avó Mariana
é a hora de partir.
Vai rever teus campos extensos
de plantações sem fim".


- "Onde é terra di gente?
Velha vem, não volta mais...
Cheguei de muito longe,
anos e mais anos aqui no terreiro...
Velha tonta, já não tem terra
Vou ficar aqui, minino tonto".


Avó Mariana, pitando seu jessu1
na soleira do seu beco escuro,
conta Avó Velhinha
teu fado inglório.
Viver, vegetar
à sombra dum terreiro
tu mesmo Avó minha
não contarás a tua história.


Avó Mariana, velhinha minha,
pitando seu jessu1
na soleira da senzala
nada dirás do teu destino...
Porque cruzaste mares, avó velhinha,
e te quedaste sozinha
pitando teu jessu1?


_____
1 - Jessu: cachimbo de barro;
2 - Sanzala: aldeia.



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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Alda do Espírito Santo - No mesmo lado da canoa

* Alda do Espírito Santo

No mesmo lado da canoa
As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.


É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta
[com o gandu1
Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente2 e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá3
juntando-me na gamela
vadô tlebessá4
a dez tostões.


Mas as nossas mãos milenárias
separam-se na areia imensa
desta praia de S. João
porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p'la vida,
tu pensas irmão da canoa
que nós os dois, carne da mesma carne
batidos p'los vendavais do tornado
não estamos do mesmo lado da canoa.


Escureceu de repente.
Lá longe no outro lado da Praia
na ponta de S. Marçal
há luzes, muitas luzes
nos quixipás5 sombrios...
O pito dóxi6 arrepiante, em sinais misteriosos
convida à unção desta noite feiticeira...
Aqui só os iniciados
no ritmo frenético dum batuque de encomendação
aqui os irmão do Santu
requebrando loucamente suas cadeiras
soltando gritos desgarrados,
palavras, gestos,
na loucura dum rito secular.


Neste lado da canoa, eu também estou irmão,
na tua voz agonizante, encomendando preces, juras,
[ Maldições.


Estou aqui, sim, irmão
nos nozados7 sem tréguas
onde a gente joga
a vida dos nossos filhos.
Estou aqui, sim, meu irmão
no mesmo lado da canoa.


Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.
Queremos unir as nossas mãos milenárias,
das docas dos guindastes
das roças, das praias
numa liga grande, comprida
dum pólo a outro da terra
p'los sonhos dos nossos filhos
para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.


E a tarde desce...
A canoa desliza serena,
rumo à Praia Maravilhosa
onde se juntam os nossos braços
e nos sentamos todos, lado a lado,
na canoa das nossas praias.


______________________
1 - Gandu: tubarão;
2 - Izaquente: frutos cujas sementes são caracterizadas por um alto poder energético;
3 - Vadô Panhá: espécie de peixe voador que no tempo seco se apanha na praia;
4 - Vadô tlebessá: peixe voador que se distingue do vadô panhá por apenas se pescar em alto mar;
5 - Quixipás: barracas feitas com folhas de palmeira;
6 - Pitu dóxi: "apito doce", literalmente. Flautista virtuoso;
7 - Nozado: velório.


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alda do Espírito Santo - Onde estão os homens caçados neste vento de loucura

* Alda do Espírito Santo


O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Ai o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Ai, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
- Nós estamos de pé -
nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando pela vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
... Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
- Que fizeste do meu povo?...
- Que respondeis?
- Onde está o meu povo?
...E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...

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