sábado, 25 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Armando Silva Carvalho - A conversa do poema e da vida

CRÍTICA LIVROS

A conversa do poema e da vida

Armando Silva Carvalho regressa com a novidade de quem tem na escrita um dos caminhos de maior solidão, pelo radicalismo da sua experiência do corpo, do ser humano, de deus e do mundo.

José Mário Branco - Eu vim de longe



Eu vim de longe



Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

http://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/540307.html

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

I, Daniel Blake



João Vasconcelos-Costa escreve

Lembram-se da carta que Daniel Blake deixa e que é lida no funeral pela sua jovem amiga? Só agora consegui o magnífico texto.

“I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief.
I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so.
I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity.
My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect.”
I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you.”

“Não sou um cliente, nem um consumidor, nem um utente de serviços. Não sou um mandrião, nem um pedinchas, nem um mendigo, nem um ladrão.
Não sou um número de cartão de segurança social, nem uma mancha no ecrã de computador. Pago os meus impostos, nunca a dever sequer um cêntimo, e sempre me orgulhei disto.
Nunca me ponho em bicos de pés e viro-me para os outros com os olhos nos olhos. Não aceito nem procuro a caridade.
Chamo-me Daniel Blake, sou um homem, não sou um cão. Como tal, exijo os meus direitos. Exijo que me tratem com respeito.
Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos. Obrigado.”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

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16 de Fevereiro de 2017, 07:42

Por


Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

C
om ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.

Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha, o paupérrimo “à condição”. É assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica “líder à condição”. Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações “à condição”. Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão “à condição” é culpa da televisão que obrigou a “jornadas dominicais” estendidas por 4 dias!
A expressão “à condição” exige dizer-se qual ela é. Porque condições há muitas… Se eu disser simplesmente “estou à condição”, entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer “sob condição”), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. Aliás, “à condição” é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões “à condição” …
Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de “by default” (“por defeito”). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer “por omissão”, “por predefinição”, “por norma”); a que está associada ao verdadeiro significado da palavra “defeito” enquanto imperfeição ou deformidade; ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a “por excesso” (por exemplo, “O PIB foi avaliado por defeito”).
Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção “por defeito” com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, “fez mal (ou bem), por defeito”, “sem carro, foi a pé, por defeito”, “como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito”, “era palhaço, por defeito”, “passou a ser ateu, por defeito” … Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito?
Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês “to realize”, que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo realizar tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês.  Ora, realizar significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, pôr em prática, dirigir um filme, produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês (“ele só ontem realizou que os impostos subiram”). Como diria Júlio Verne, “tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar”.
Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: “Nos próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar”. Fiz-me entender?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/02/16/hoje-escrevo-por-defeito-e-a-condicao/

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

* Nuno Pacheco
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?
9 de Fevereiro de 2017, 8:00

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.
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Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?
Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e actoótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.
Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.
E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Viver e Morrer em Angola de Paulino Soma

Cultura



3 de fevereiro de 2017 - 15h37 


Divulgação

Viver e morrer em Angola é um retrato profundo sobre a insensatez da guerra, a intolerância da guerra e a irracionalidade da guerra
Este é – verão depois – um livro forte, agudo, solenemente estranho num Fevereiro de 2017 mas corajoso o suficiente para nos lembrar, como angolanos e como humanos, que é escusada em absoluto a insensatez da guerra, a intolerância da guerra, a irracionalidade da guerra. Paulino Soma acaba de escrever o livro que os que decidem a guerra e a paz, os que instituem o “Nós e Eles”, os que assumem a juventude dos seus países como estatística fria e impessoal para alimentar exércitos A e exércitos B, fariam bem em colocar sobre a cabeceira da consciência e nunca no alto da estante onde ninguém o toca.

Passaram-me pela cabeça mil e uma interrogações quando iniciei a leitura deste livro, na última semana. A primeira grande pergunta foi sobre o tempo enquanto razão para a narrativa, a sua contextualização e até pertinência. Aos primeiros calafrios, às primeiras explosões de sangue, depois das dramáticas primeiras mortes, perguntei-me se este era um livro oportuno para década e meia de uma vida em paz e se, também, eu mesmo teria fôlego para lhe esmiuçar as linhas e parágrafos, as páginas e os capítulos, até ao fim.

Fi-lo sim, com o arrojo e o sangue-frio de quem vê um filme de terror ou, nas situações mais brandas, de quem se entrega aos instantes e aos minutos do clássico suspense de Alfred Hitchcok. E só foi ao chegar à última página que a minha pergunta ficou respondida. E só será no fim da minha apresentação que vos direi se o audaz Paulino Soma fez, em minha opinião, bem ou mal recuperando para o presente o tema da guerra fratricida em Angola. Esperemos até lá, então!

Caros Amigos

Receio que vos possa hoje cansar com a extensão do texto que julguei útil trazer-vos como percepção do que me ficou ao ler avidamente este livro com trezentas e sessenta e quatro páginas, mas só tenho como ajuda generosa à vossa provável impaciência o apelo para que sejam, por favor… pacientes!

É que uma obra feita com a incrível competência que esta respira, onde os diálogos, por exemplo, não nos chegam ao cérebro como captações repetidas do nosso olhar mas antes como vozes que se escutam, como sussurros que parecemos e queremos ouvir, como medos manifestados em voz alta por pessoas que temos a sensação de estar a ver por detrás das paredes ou do capim escondendo-se das balas e dos obuses, uma obra assim, dizia, tem de ser explicada, apreciada, tratada, com o rigor e a seriedade de um tempo generoso. Sem pressa!

Há mil e um planos que devem e precisam ser elevados até ao palco de uma apreciação justa. Não faze-lo seria frustrar enormemente o notável esforço que se percebe estar concentrado nesta soberba narrativa de Paulino Soma, que nos serve a guerra e os seus horrores numa bandeja como possivelmente não a tínhamos visto antes. E isso sabendo que muitos outros autores angolanos o elegeram também, sendo, para mim, particularmente recomendável por exemplo, Aníbal Simões no seu “Entre a Morte e a Luz”, editado há 15 anos atrás, em 2002.

O que tem de diferente a obra Viver e Morrer em Angola de Paulino Soma é, sem dúvidas, o modo como se mostra a violência da guerra que esventrou Angola, o sofrimento dos homens que a fizeram de armas na mão mas, essencialmente, a vulnerabilidade das populações indefesas. Digamos que o modo tão pateticamente selvagem como “o capim” sofreu nesta contenda “de leões”, recorrendo à célebre alegoria da sabedoria bantu.

Se o quisermos reduzir a uma linha de síntese, a tal pergunta clássica sobre o que é que o livro conta afinal, diremos que o livro relata o sofrimento das gentes de Caconda, município da província da Huíla de onde é natural o autor, nos sobe-e-desces de uma guerra com vencedores precários e heróis um tempo, mas que passadas semanas, meses ou anos, estão transformados em derrotados também eles.


Todo o mal e toda a barbárie que perpassou os campos de batalha de Angola, onde se viveram episódios de uma crueldade assombrosa e quase impossível de narrar só com a força da palavra escrita, é o que se tem neste livro, que quase precisa de uma advertência ao estilo da classificação dos cinemas: “Não aconselhável a menores de 30 anos”.


É que não apenas levamos para casa um testemunho de uma guerra que por muito cruel que tenha sido mas aconteceu de fato, é uma realidade da História, como também somos brindados com um extraordinário desempenho de escrita, surpreendendo a capacidade que o autor mostra de construir diálogos, de dar-nos a plástica dos episódios e até a densidade dos medos que acorrentam quem neles está envolvido.

Ao longo do livro, mesmo tratando-se de uma temática cruel, dolorosa, onde o medo e as tensões que provoca são explorados de uma maneira quase que nos assusta ler a obra estando sozinhos, ao longo do livro, dizia, deliciamo-nos em muitos outros momentos com magníficos rasgos que denotam uma superior capacidade de construção frásica do autor, aliada a uma estrutura de pensamento filosófico que constantemente deixa lições, apela a reflexões.

Posso enumerar-vos um conjunto de frases e expressões, diálogos e outros belíssimos trechos em que tudo isso foi muito bem conseguido, o que dá – repito – grande qualidade a esta obra que está muito longe de ser apenas mais uma a chegar ao mercado.

Por exemplo:

– Neste país há muitos mortos e muitas vidas mortas!

“Os rostos alegres e os tristes repentinamente entreolhavam-se e, aqueles alegres, tornavam-se tristes também”;

“Menino, menino, os meus olhos, agora cansados, já viram muitas coisas, e das coisas que viram que trazem o bem das pessoas, a guerra não está lá, não está não; Mas das coisas mais assassinas, e mais malditas, e mais ingratas que eu já vi, das coisas que fazem mesmo crescer a miséria e a fome e a dor, das coisas que despejam o sangue das pessoas, que não respeitam a vida, a primeira mesmo é a guerra. Por isso, é melhor pensar bem antes de ires lá, na guerra. A guerra tem garras que tiram sangue”

A banalização da morte e a insensibilidade de que uma guerra se cobre são estados de espírito que também vale a pena que os apreciemos, no modo frio e franco como o escritor Paulino Soma os descreve. É uma conversa entre o sargento Mingo e o soldado Enyenya, nome de guerra de Jamba, ambos pertencentes às forças governamentais:

– Hum, e como é que aprendeste a conviver com esta realidade tão cruel, sargento?!

– Fazendo a quitota com todo o meu corpo, com todo o meu coração, com toda a minha força, com toda a minha alma e com todo o meu amor. Eu adoro o gatilho, mô mano, e isso não me faz dizer que a nossa realidade seja bué malaiki como tu dizes.

– Adoras o sangue também?

– Tu continuas a ser um tropa de merda, meu. Porra! Um dia bates a cassuleta só porque não quiseste bondar. Na quitota é tudo ou nada. Eu sou um nganzado, Enyenya. Tu me sabes. Não poupo o meu inimigo quando tenho a oportunidade de o bondar. Mato os gajos a rir. Quando vejo os gajos a sangrar e a caírem no chão, me cuya feio!

– És um assassino de primeira, sargento!

– E tu pensas que te nego? Nem pensar; eu sou mesmo um assassino. No princípio também fui santinho, mas não tão santinho como tu. Quando vi os meus cambas a serem mortos como cães, eu preferi me tornar num cão danado, mô mano, com muita raiva para tudo o que é do lado do meu inimigo. Deixa-me te dizer um bizno que te servirá de conselho: a maior parte dos meus colegas que eram santinhos, assim como tu, não duraram muito! Baicaram! A quitota não é para santinhos, é para diabinhos! E se tu estás na quitota, para viveres mais tempo, precisas de te tornar num diabo, num grande diabo para levar aqueles kwatchas no Inferno.

– E quando, em vez do inimigo, morre um civil, um homem, uma mulher ou uma criança, ficas bem?

– Não no momento em que vejo a cena. Mas depois de dar as costas, mando tudo para o sítio mais escondido da minha consciência e, aos poucos, vou esquecendo. Então continuo com a minha missão de militar. Epa, a nossa intenção não é mesmo matar civis porreiros mas, às vezes, os nossos bagos, sem querer, vão dar neles. Ó meu, o que é que eu tenho a ver com isso?! Aliás, também já salvei civis. Também, sem querer, é claro, já bondei alguns. Mas, spera aí, Enyenya, tu tás a querer dizer-me que nunca bondaste nessas poucas missões em que estiveste? Eu mesmo já te vi a bondar os kwatchas.

– Já matei, sim. Mas confirmo que matei só adversários. Civis…não sei ainda. Talvez naquelas rajadas. Eu sentiria muito remorso se matasse um civil inocente (…).

– Pois mantém a tua laive mais taime para quitotares mais. Se assim for, ainda vais galar muitas mortes por aí; a minha, a dos outros kambas, quem sabe. Vais saber então que bondar, na quitota, nem sempre é uma opção, mas é, isso sim, uma obrigação; às vezes até uma necessidade. Mas não tem makas. Chegará o dia em que bondarás sem remorso".

Fim de citação.

Prestem agora atenção, por favor, ao relato de um ataque contra Caconda, quando guerrilheiros das Fala surpreendem um velho e sua filha menor, e todas as sevícias que se dão no ambiente febril de uma guerra.

“Catarina queria chorar nesse exato momento. Mas com um “psiu!”, o pai conseguiu impedi-la. Ela teve de obedecer, sabia que a situação era má. Os tropas aproximavam-se cada vez mais com as armas bem apontadas para o sítio. O tio Ngoma, como sempre fazia, começou a orar, a pedir que o seu Suku fizesse algum milagre para eles naquela situação, mas orava com o pensamento, a boca cerrada. Um dos guerreiros, impaciente, continuou a gritar:

– Eu vou te enfiar um tiro na cabeça! Mãos ao ar, mãos ao ar e vocês não obedecem, porra?!

Já estavam perto, tão perto que os corpos do tio Ngoma e sua filha apareciam sobrepostos:

– Estes já morreram ou estão a se fazer alguma coisa?! –disse um deles.

– Tu não vês que esta é só uma criança?! –defendeu um dos guerreiros.

O tio Ngoma queria fazer-se de morto sobre o corpo da filha, mas esta enxergou, no escuro, dois canos das armas a aproximarem-se e, desta vez, sem pensar, gritou chorando e mostrando apenas com os olhos o que via.

– Papá, estão aí!

Um dos canos da arma já estava sobre a sua cabeça, bem no occipital, enquanto os outros o colocavam um pouco distanciados.

– Levanta, mais-velho – ordenou ainda um deles.

O tio Ngoma não teve outro remédio. Embora tarde, obedeceu então. Obedeceu sem largar a filha.

Mas deram-lhe com uma coronhada no ombro direito e teve de a largar nesse momento. Catarina chorava pesarosamente.

– O gajo é mafioso! –disse o chefe dos dois. – Vamos depois ver o que fazer com eles. Por enquanto, ajudam-nos a levar as mochilas até à vila de Caconda.

Duas mochilas de munições e provisões alimentícias foram entregues ao Tio Ngoma, para as levar. Catarina teve de carregar três grandes obuses sobre as costas. Devia ser insuportável o peso».


Já vos arrepiei o suficiente e espero que vai sendo tempo de parar.


E faço-o regressando à pergunta do começo, sobre o que penso a respeito da ideia de um livro com esta temática chegar às nossas mãos quinze anos depois do calar das armas. Pois a minha resposta é franca, curta e directa: este livro é mais do que oportuno, pertinente, necessário. Porque deambulam ainda por aí os líricos que parecem não saber que os angolanos, todos indistintamente, já tivemos a nossa dose cavalar do inferno que é sempre uma guerra.

É um livro para recuperar memórias no sentido de se impedir que tropecemos de novo na mesma pedra; é um livro para dizer aos idealistas de umas certas primaveras que este é um país necessitado avidamente de paz para construir presente e futuro.

Este é um livro com voz e espaço num ano que é de eleições onde, na África imprudente que faz os nossos dias, está sempre latente o fantasma da convulsão, da paz que se periga, do sossego que se fragiliza.

Por isso, bem-haja ilustríssimo Paulino Soma com este magnífico exercício de cidadania e patriotismo; bem-haja também editora Mayamba, por mais esta demonstração de inequívoca independência e liberdade de atuação.

Muito obrigado a todos. Até um dia destes! 


*Luis Fernando é jornalsita em Angola, correspondente do Jornal Tornado
http://www.vermelho.org.br/noticia/292896-1

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa - Alma de Côrno

 * Fernando Pessoa




Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.


Nota: reprodução do poema respeitando a grafia original do fac-símile.


https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2017/02/03/alma-de-corno-fernando-pessoa/

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Salvé, Fernando Assis Pacheco

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31 de Janeiro de 2017, 16:02

Por


Salvé, Fernando Assis Pacheco

O
livro “Tenho Cinco Minutos pra Contar uma História” é uma memória daquele jornalista, ou poeta, ou prosador, que faria 80 anos e que anda a gozar com toda a gente. É por gozo que nos manda estas crónicas repescadas em papéis, que as gravações são escassas, e que deram em voz de rádio entre 1977 e 1978, na RDP.

O homem, “coimbrinha de nascimento e alfacinha pelo local de trabalho”, ficou famoso pela participação num concurso de TV, a Cornélia, com um empreendimento familiar que fizera dele um pop star. “Aqui há quatro meses as mães aproximavam-se de mim e diziam aos meninos pequenos: ‘Vá, dá lá um beijinho ao senhor da Cornélia!’,”explica-nos ele, envergonhado por, depois de tanto beijo, ainda ter sido transformado em cromo da caderneta do concurso. O certo é que ficou famoso, mas o merecimento era maior do que a pilhéria de umas noites de TV.
Assis Pacheco vem de uma história de galeguices, de um avô que atravessou para Portugal para vender panos pelas feiras e que era pesado com o cajado nos lombos de quem lhe agourasse. Por cá instalados, os Pachecos arribaram a Coimbra e o Fernando à universidade. Fez tropa e rimas e deu em jornalista.
Como Dinis Machado, um escritor de que tanto gostava, ele dava em flanar. “Fica-se por aí, homem de poucas falas, desconfiado talvez de que a glória (ah, a glória…) não passa de um engodo das Parcas, as cabras das Parcas, dissimulando a tesoura na dobra véstia. Do que ele parece que gosta é de flanar, mais flanar do que falar, de flanar claro, diria eu.” Só que Assis Pacheco era mesmo de flanar, de falar e sobretudo de escrever.
As crónicas são o registo em papel daquelas falas. Nelas nos conta como viajou a cobrir jogos de futebol na Alemanha, ou a acompanhar um escritor, José, não se deite a adivinhar, era o Cardoso Pires, desembarcando ambos na Dinamarca para receberem toda a hospitalidade, incluindo “saborear um amável peixe de coloração encarnada, em português ‘rodovalho’, cozido na altura, como deve ser, cercado de batatas novas e, ó José, que bem me lembro, suicidado num molho branco e doce, com leite, açúcar, etc., que ia agonizando toda a história da Literatura Portuguesa dos últimos 40 anos.” O viajante gosta de Cesário Verde, vendedor de ferragens, dono de poesia ao balcão, que morreu tísico aos trinta e muito pouco, lembra o Joaquim Agostinho e antes dele o Alves Barbosa e os ciclistas perdidos por esse mundo, regista as conversas entre passageiros de eléctrico, manda recado ao Arnaut que entrou para o governo, para os assuntos sociais, é um rapaz da minha geração lá de Coimbra e dará conta do recado, conta matreiro como chegou à Conservatória para o casamento, na bicicleta do cabo enfermeiro Barra e com um grãozito na asa, para ser solenemente admoestado pelo chefe de balcão – este Assis Pacheco é uma torrente, qual flanar.
É saboroso: e não é que o oficial da censura continuou a insistir com o jornal, pela tarde de 25 de abril, que as provas estavam atrasadas, até o telefone ficar a tocar sozinho? É pícaro: revela a “sociedade aldrabófona nacional”, como aquele homem que lhe pediu duas vezes um contributo para o funeral da mesma esposa estimada com poucos anos de intervalo. É jornalista: “Sento-me na bancada, acendo um cigarro e vejo calmamente os 90 minutos de chuto na bola, divertindo-me imenso com a paranóia ambiente. No meu tempo dizíamos ‘fora o árbitro’ e a boca escaldava com tanta enormidade; hoje um estudioso poderia aproveitar os sábados e domingos para se por à la page com o calão mais recente e sofisticado, e sobrar-lhe-ia tempo para admirar como o português, esse brando de costumes, enriquece a língua por dá cá aquela finta.” Este Assis Pacheco era tudo.
Salvé, Fernando.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/01/31/salve-fernando-assis-pacheco/